A queda de 23,6% na produção de veículos automotores no primeiro semestre deste ano ante igual período no ano passado foi a mais intensa para um primeiro semestre desde o começo da série histórica atualizada pelo IBGE, iniciada em 1991. A informação é do economista da coordenação de indústria do instituto, André Macedo, que observou ainda que o resultado de janeiro a junho deste ano é o pior desempenho semestral da indústria automotiva desde o segundo semestre de 1998 (-28,6%).

O segmento de veículos automotores pesquisado pelo IBGE engloba automóveis, autopeças, ônibus, e caminhões, e estão presentes tanto na indústria de bens de capital (com caminhões, por exemplo) como na indústria de bens duráveis (com automóveis). Macedo comentou que, desde setembro do ano passado, período em que os efeitos negativos da crise global se acirraram, esse setor teve de lidar com um cenário de alto nível de estoques e recuo na demanda doméstica. Ele comentou ainda a importância de veículos automotores para outras indústrias relacionadas, como metalúrgica; produtos químicos; de borracha e de plásticos. “Por influência do recuo na produção da indústria automotiva, a produção dessas outras indústrias, que participam da produção de veículos automotores, também sofreram”, comentou.

Para a gerente de Análise e Estatísticas Derivadas do IBGE, Isabella Nunes, o nível da queda em veículos automotores “não surpreende”, e foi originado basicamente da influência negativa da crise global sobre a demanda. “Devido à crise, outros países também apresentaram números de quedas na produção veículos automotores semelhantes ao que apresentamos agora”, afirmou. Ela reiterou ainda que a queda na produção de veículos automotores foi um dos fatores que mais contribuíram para a queda de 13,4% na produção da indústria geral, no primeiro semestre.

Acomodação

O aumento de apenas 0,2% na produção industrial brasileira em junho ante maio não é preocupante, na análise de Isabella Nunes. Para ela, o fato de a taxa de crescimento ter sido bem menos intensa do que a apurada em maio (1,2%), nesse tipo de comparação de mês ante mês anterior, não representa o início de uma retração no ritmo de recuperação da atividade industrial em junho. “É natural que, depois das taxas anteriores, que foram de crescimento forte, ocorra uma acomodação”, explicou.

A economista comentou que o resultado de 0,2% veio depois de cinco taxas positivas mais elevadas, nesse tipo de comparação, que foram influenciadas por fortes crescimentos nas indústrias de alimentos e de farmacêutica. “Essas duas indústrias contaram com forte crescimento de produção industrial por fatores pontuais”, disse. Isabella lembrou que, no caso da indústria de alimentos, houve uma forte influência benéfica da indústria açucareira brasileira, que aproveitou oportunidades de exportação após safras ruins na produção de açúcar em outros países, esse ano. “Essa taxa de 0,2% é um número pontual”, frisou.

O fato de a indústria geral, mesmo em trajetória de recuperação, ainda apresentar em junho taxas de variação negativas em sua produção, nas comparações de mês ante igual mês do ano anterior e no acumulado do ano também foi comentado pela economista. Ela lembrou que, no ano passado, a produção industrial seguia ritmo muito forte, até o início do período mais agudo da crise global, em setembro de 2008. Os números deste ano da produção industrial estão sendo comparados com um patamar muito elevado, e muitos ainda estão abaixo dos níveis registrados em 2008. “O que nós temos em 2009 é uma nova realidade de demanda, diferente do que observamos no ano passado. Por isso, os números nessas comparações se mostram ainda negativos”, afirmou.

A queda da produção industrial acumulada em 12 meses até junho, de 6,5%, é a mais intensa da série histórica, de acordo com o IBGE. Nos 12 meses até maio, a queda havia sido de 5%. De janeiro a dezembro de 2008, a queda foi de 3,1%.

Na comparação entre trimestres, a produção industrial cresceu 3,4% no segundo trimestre de 2009 em relação ao primeiro trimestre, depois de ter caído duas vezes consecutivas na comparação de trimestre ante trimestre imediatamente anterior. Já na comparação entre o segundo trimestre deste ano e igual período de 2008, a produção industrial teve queda de 12,3%. O desempenho negativo, porém, foi menor que no primeiro trimestre, quando houve taxa negativa de 14,6% na comparação com igual período de 2008.