Rio (AE) – A fabricação de máquinas e equipamentos destinados à indústria da construção – guindastes, escavadeiras, rolos compressores, tratores etc – aumentou 38% de janeiro a outubro deste ano em relação ao mesmo período do ano passado, mostra o índice especial da pesquisa industrial do IBGE. Foi, de longe, o setor com maior crescimento de produção de bens de capital. O segundo maior crescimento foi o de equipamentos de transporte (23%), seguido pelos equipamentos industriais produzidos em série (18%). Alicates, máquinas de furar, tonéis de ferro, barris, chaves de fenda, marretas, compressores de gases são alguns exemplos desse tipo.

A mudança de desempenho do setor de construção explica, em parte, o salto de 20,1% na taxa de investimento no País no terceiro trimestre, a maior desde o segundo trimestre de 1995. Durante todo o ano passado, a taxa foi negativa. Não há um corte específico no IBGE por setor para a taxa de investimento, mas, levando-se em conta que o critério mais relevante no cálculo é o acompanhamento da produção de bens de capital, que são os equipamentos encomendados pela própria indústria, chega-se à conclusão que a construção vem, de fato, investindo mais.

"Uma boa forma de se identificar de onde vem o investimento é pela absorção de bens de capital", diz o coordenador de macroeconomia do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Paulo Levy. O investimento é medido nas estatísticas por meio da rubrica FBCF (Formação Bruta de Capital Fixo). O maior peso neste cálculo cabe à construção civil.

Segundo dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), nos últimos três anos a participação relativa do setor na composição da FBCF ficou em torno de 64%. Em 2003, os investimentos em construção acumularam queda de 6,6%. O ano de 2004 começou com uma reação tímida, mas nos segundo e terceiro trimestres os investimentos tiveram alta de 11,3%, ainda de acordo com dados da Câmara.

A Fundação Getúlio Vargas revela, em cruzamento de dados feito a pedido da reportagem, que vem da produção de material plástico para construção a mudança mais radicalmente positiva nas previsões de investimento para 2005. Em 2004, 81% das empresas ouvidas declararam redução de investimentos. Para 2005, o quadro é oposto: 85% prevêem aumento. "A indústria de bens de capital é a que demonstra mais agressividade nas projeções para 2005. Das empresas ouvidas neste segmento, 71% indicaram que vão investir mais", diz Jorge Braga, coordenador técnico da Sondagem Conjuntural da FGV, em levantamento feito com mais de 2 mil empresas.

Na indústria de materiais de construção, embora seja ligeiramente superior a quantidade de empresas investindo mais em 2005, a situação ainda está bem dividida: 39% declararam que vão elevar os investimentos, 34% vão reduzir e 27% manterão a mesma posição. Já é um bom resultado, diante da redução de 2003 e da estagnação de 2004. A CBIC não arrisca um porcentual de crescimento, mas prevê para 2005 a maior expansão do PIB da construção nos últimos 15 anos, batendo o resultado histórico de 1997, com crescimento real de 7,62%. Este ano, o desempenho do setor ficará em torno de 7% de alta, resultado ainda tímido, diante da queda de 5,2% do ano passado.

Ex-funcionário da Caterpillar (uma das maiores fabricantes de equipamentos industriais) e da construtora Camargo Corrêa, Carlindo Macedo montou, há três anos, um site para intermediação de venda de máquinas. Sua empresa virtual, a Metramaq, tem registrado, nos últimos seis meses, insuficiência de equipamentos usados para suprir a procura, o que provocou um aumento imediato em torno de 10% nos preços.

"Esta semana liguei para confirmar a disponibilidade de um rolo compactador anunciado há um mês por R$ 65 mil e o preço pedido já havia aumentado para R$ 75 mil. A oferta diminuiu, a demanda subiu e os preços dispararam", diz ele. Macedo comenta que as grandes empreiteiras costumam trocar seus equipamentos depois de três anos e meio e uso.

Mas, como são máquinas com uma vida útil longa, de até 25 anos, vão sendo revendidas e recolocadas no mercados até o ponto de virar sucata.

Os pedidos de novos financiamentos em análise no BNDES confirmam a tendência de crescimento. Um dos maiores destaques é o setor de metalurgia, de onde saíram 570 pedidos de empréstimo, totalizando R$ 11,2 bilhões. Este ano, os desembolsos para o setor não chegaram a um décimo disso: R$ 946 milhões e, mesmo assim, estão entre os melhores desempenhos no banco.

Já enquadrados, ou seja, o projeto foi aceito e o corpo técnico do banco já começou a analisar a possibilidade de aprovação, estão outros 564 pedidos, num total de R$ 5,1 bilhões. Boa parte destes pedidos deve virar financiamento efetivo no segundo semestre do ano que vem.

Empresa do Grupo Fiat, a CNH, líder mundial na fabricação de máquinas de construção, tratores e colheitadeiras, tem duas fábricas no Brasil. A de Curitiba (PR) é mais voltada para equipamentos agrícolas, enquanto a de Contagem (MG), para a produção de máquinas para construção.

2003 foi crítico para construção

Valentino Rissioli, presidente da CNH para a América Latina, diz que o ano passado foi o pior ano para o setor de construção no País. A situação ficou tão crítica que a empresa se empenhou em compensar a fraca demanda doméstica com o aumento das exportações, por absoluta falta de alternativas.

"Desde 1999 o setor de construção está em depressão. Para se ter uma idéia, o País produz, normalmente, entre 7 e 8 mil máquinas pesadas. No ano passado, foram somente em torno de 4 mil. No meio deste ano, começou o crescimento de demanda. Tivemos um aumento de produção no terceiro trimestre de 20% e acredito que o quarto trimestre será também nesta base. Para o ano que vem, esperamos um aumento de demanda de mais 15%, o que resulta num aumento de 35% em 18 meses", comenta o executivo italiano, há 30 anos no Brasil.

Mesmo com toda essa retomada, a produção ainda está longe do que foi em 1998, segundo ele. A fábrica operava então com dois turnos e meio de operários. Hoje é um turno só e há como dobrar a capacidade produtiva apenas elevando o número de funcionários, sem investimento no aumento da capacidade. A fábrica mineira da CNH é a mais complexa do setor na América Latina, pela diversidade de modelos de máquinas e marcas (Case Construction e Fiatallis no mercado interno, Fiat Kobelco e New Holland para exportação) que compartilham uma mesma linha de produção.

Os investimentos em modernização iniciados em julho de 2003, que estão sendo concluídos neste fim de ano, somam mais de R$ 20 milhões, para que a empresa tenha maior flexibilidade na linha de produção e aumento da produtividade.