Brasília – Apesar das discussões acaloradas sobre os efeitos perversos de uma contínua valorização do real sobre as exportações brasileiras, o setor industrial começa a se preocupar com um outro fator mais palpável, cujo os efeitos sobre o desempenho exportador podem ser mais concretos: a capacidade de produção das indústrias. A falta de investimentos no setor poderá fazer com que as empresas passem, cada vez mais, a utilizar suas máquinas em níveis próximos a 100% de sua capacidade produtiva, o que afetará o desempenho da balança comercial no futuro.

Segundo estudo elaborado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), publicado no Boletim Comércio Exterior em Perspectiva, divulgado ontem, as empresas exportadoras estão aumentando cada vez mais o grau de utilização de suas máquinas. “O crescimento da utilização da capacidade instalada das empresas exportadoras apresenta-se como um potencial constrangimento para as exportações”, avaliam técnicos da CNI. “Não havendo uma retomada do investimento em capacidade, o aumento das exportações começará a ser limitado pela oferta, sobretudo se a demanda doméstica voltar a crescer” explicam o técnicos no estudo.

Repetindo a tendência verificada em 2002, as empresas exportadoras tiveram no primeiro trimestre de 2003 um desempenho melhor do que o verificado entre as empresas com foco no comércio local. De acordo com o levantamento feito pela CNI, as empresas que não estão voltadas para o comércio internacional vêm registrando quedas significativas na utilização de sua capacidade de produção instalada.

Entre as pequenas e médias empresas desse grupo, o índice de utilização da capacidade instalada (UCI) caiu de 66% para 63%, entre os primeiros trimestres de 2002 e 2003. No caso das grandes empresas o índice recuou de 70% para 66%. Nesse mesmo intervalo de tempo, as empresas exportadoras registraram um crescimento no grau de utilização de suas plantas para a fabricação de produtos. Os índices de UCI médio das exportadoras brasileiras foram de 73% para as pequenas e médias e de 79% para as grandes companhias no primeiro trimestre deste ano. No mesmo período do ano passado, esses índices haviam sido de 69% e 78%, respectivamente.

Os setores que registraram maior crescimento na utilização de suas máquinas no primeiro trimestre de 2003 foram os de produtos alimentares (de 64% para 80%), materiais plásticos (de 66% para 78%) e papel e papelão (de 81% para 89%).

Para os técnicos da CNI, o melhor desempenho das empresas exportadoras não é uma surpresa. “Tal resultado não chegou a surpreender, dado que o fator determinante do crescimento industrial recente tem sido a demanda externa”, argumentam os técnicos. “Não obstante, o crescimento do grau de utilização da capacidade instalada das empresas exportadoras apresenta-se como um entrave em potencial à manutenção do crescimento das exportações”, reforçam os técnicos.