Em meio a um cenário de instabilidade das condições macroeconômicas, a indústria brasileira patina sem dar sinais de aceleração no ritmo da atividade econômica. “É a recuperação mais lenta em uma década. A indústria desacelerou em 2011 e começou a recuperar no segundo trimestre do ano passado. Mas essa recuperação tem sido lenta”, afirmou o superintendente adjunto de Ciclos Econômicos da Fundação Getulio Vargas (FGV), Aloisio Campelo.

A prévia do Índice de Confiança da Indústria (ICI) divulgada nesta quarta-feira, 19, pela FGV apontou uma queda de 1,2% em junho em relação ao mês passado. Analisando dados quantitativos e qualitativos, Campelo disse que há um avanço na atividade industrial, o que pode ser comprovado pelo Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci) no segundo trimestre ter ficado 0,3 ponto porcentual acima do primeiro trimestre do ano, em 84,5%.

“A indústria está crescendo, o que é uma notícia favorável. Porém, há uma dúvida em relação ao ritmo de crescimento da indústria para este ano”, declarou. Campelo avalia que, no momento e para os próximos meses, os indicadores de confiança mostram um crescimento moderado da atividade industrial.

Segundo o economista, os índices de confiança da indústria mostram uma perda de vigor desde fevereiro deste ano, indicando perda do ritmo industrial para o segundo semestre. “O que dificulta o crescimento da indústria é o consumo das famílias, que desacelerou muito, e também a economia internacional. A indústria local desenvolveu um relacionamento muito forte com a China e com a América Latina, e não há nenhum país com relação comercial com Brasil que esteja registrando uma melhorada”, afirmou Campelo, lembrando que a situação dificulta a vida dos exportadores e dos que disputam com os importados.

Na semana passada, o governo federal lançou o programa Minha Casa Melhor, que concede crédito barato aos beneficiários do programa Minha Casa, Minha Vida para a aquisição de eletrodomésticos e móveis, tais como TV, sofás, camas, geladeiras e computadores. Apesar de considerar que a iniciativa deve ter um impacto positivo para fabricantes desses bens duráveis, Campelo ponderou que por si só será insuficiente para mudar o ritmo de expansão da indústria brasileira em 2013. “Tem impacto nesses setores. Mas, do ponto de vista indústria como um todo, não é tão relevante.”

Como exemplo, mencionou que a indústria automobilística, beneficiada pelo governo federal com incentivos fiscais, tem sido incapaz de alavancar o crescimento industrial no ano, mesmo sendo um setor que tem efeito multiplicador em diversas cadeias produtivas. “O programa do governo federal colabora para o crescimento da indústria no ano, mas não a uma taxa expressiva. Há limitações para isso.”

O que pode contribuir para uma melhora da atividade industrial é a recente desvalorização do real, que beneficia as indústrias exportadoras. “Um dólar entre R$ 2,15 e R$ 2,20 dá um impulso e faz uma diferença em relação ao patamar de R$ 2”, afirmou. Campelo ponderou, todavia, que a própria indústria não mostra otimismo com o curto prazo – o índice de expectativa industrial caiu 1,3% em junho ante maio.

“A indústria quer esperar para confirmar esse patamar. Demora um pouco para que possam aproveitar os ganhos de competitividade trazidos pelo câmbio”, argumentou o economista, citando que a alta recente da taxa de juros (Selic) também contribuiu para a visão menos otimista do curto prazo.