São Paulo  – O banco norte-americano JP Morgan reduziu anteontem (14) à noite sua recomendação para a dívida externa brasileira da posição “overweight” para “marketweight”, dizendo acreditar que “o cenário externo é menos favorável e o governo perdeu uma importante janela de oportunidade para lançar uma agenda de reformas mais positiva”. A recomendação “overweight” (acima do mercado) significa que o investidor deve ter em sua carteira uma parcela maior de ativos brasileiros, na comparação com ativos de outros países emergentes.

Ao rebaixar a classificação do País para “marketweight” (na média do mercado), na prática o Morgan alertou que o Brasil passa a ter mais riscos e a ser menos confiável para se aplicar recursos. Ou seja, aconselhou os investidores estrangeiros a vender parte de seus títulos brasileiros.

Segundo nota assinada pelo estrategista Drausio Giacomelli, no campo econômico a perspectiva de crescimento continua incerta, como ficou evidente no resultado de fevereiro da produção industrial. “Além disso, estamos mais preocupados com as perspectivas fiscais, já que o desempenho em janeiro e fevereiro foi inferior às trajetórias de anos anteriores. O governo tem sido mais permissivo nas negociações salariais com os servidores e pensionistas e parece estar considerando sugestões para mudança nas metodologias de superávit primário ou aplicação de mecanismos anticíclicos, que podem trazer volatilidade na relação dívida/PIB (Produto Interno Bruto)”.

A nota diz ainda que a instituição “acredita que o governo irá cumprir as metas com o FMI (Fundo Monetário Internacional), mas a qualidade dos resultados fiscais se deteriorarão e terão impacto negativo sobre as perspectivas de crescimento. O governo pode reverter as notícias negativas, mas os sinais recentes sugerem preocupação”.

O banco norte-americano observou que a posição técnica dos ativos brasileiros é frágil, já que todas as categorias de investidores continuam “overweight” (carregados em posição brasileira) e que o Brasil ainda precisa emitir US$ 2,5 bilhões neste ano. “Acreditamos que a situação overweight tem explicado o desempenho abaixo da média do Brasil em relação ao resto do mercado neste ano”, diz a nota.

“Enquanto o índice Embig (global) subiu 1,9%, o Brasil caiu 2,2% e é um dos dois únicos países com retorno negativo”, afirma a instituição. “Embora tenhamos elevado nossa posição overweight em 20 de fevereiro, quando compramos C-Bond a 636 pontos-base, acreditando que o forte movimento de venda foi uma reação exagerada à situação política doméstica, agora acreditamos que a combinação de condições técnicas pobres, crescimento incerto, estagnação política e a elevação nas taxas norte-americanas justifica uma posição neutra.”

Ministro critica posição do banco

O ministro Guido Mantega (Planejamento) rebateu a avaliação feita ontem pelo banco norte-americano JP Morgan, que colocou em dúvida o cumprimento pelo Brasil da meta de superávit primário (receitas menos despesas, excluídos os juros) e o crescimento projetado de 3,5% para a economia do País neste ano.

Devido a essa avaliação, o JP Morgan baixou a recomendação de compra dos títulos da dívida externa brasileira – de “overweight” (com potencial de valorização acima do mercado) para “marketweight” (na média do mercado).

Mantega disse que não há nenhuma possibilidade de o Brasil não cumprir a meta de superávit de 4,25% do PIB (Produto Interno Bruto) e que o dinheiro para o reajuste dos servidores já está em caixa e não compromete a meta fiscal do governo.

Sem citar o banco de investimentos JP Morgan, Mantega disse que, duvidar desse compromisso, é uma análise “superficial”.

“Tem agência que está falando que estamos descambando, mas não é nada disso”, afirmou o ministro.

Na verdade, o ministro cometeu um equívoco ao considerar o JP Morgan como uma agência de classificação de risco e não como um banco de investimentos.

Mantega participou ontem de audiência pública na Comissão Mista de Orçamento do Congresso.

Economista diz que medida é “um aviso”

Rio

(AE) – Ao decidir rebaixar de “overweight” para “marketweight” a recomendação para papéis da dívida brasileira, o JP Morgan já está contando com o rebaixamento dos títulos da dívida de países emergentes, como Brasil, por causa da forte expectativa de alta de juros nos Estados Unidos. A avaliação é do economista do Ibmec e ex-diretor do Banco Central Carlos Thadeu de Freitas. “O que eles querem é se eximir da responsabilidade e lançar um ?eu avisei? ao mercado”, afirmou. Segundo ele, não procede a afirmação, também lançada pelo comunicado do banco, de que o Brasil poderia reduzir a qualidade dos resultados fiscais. “Nossa capacidade de pagamento é muito boa”, afirmou.

Ele acrescentou que a mudança de recomendação do banco e o aumento do risco-País, provocado pela decisão do JP Morgan, não atrapalharão a captação externa deste ano. “Para 2004, nossa captação externa já está praticamente contratada”, afirmou.

Freitas observou, porém, que se o Brasil não fosse tão dependente do fluxo de capital estrangeiro, avaliações como esta do JP Morgan teriam menos impacto. Embora elogiando a capacidade brasileira de cumprir a meta fiscal para este ano, o economista fez uma ressalva sobre o crescimento econômico, cujos indicadores não estão apresentando a melhora esperada. “O que não está demonstrando uma reação forte mesmo é o crescimento econômico do País. Isso é preocupante, mas apenas a médio prazo” afirmou.