Os bancos aumentaram os juros cobrados de clientes em março, apesar de o Banco Central ter reduzido a taxa básica de juros da economia brasileira (Selic) de 16,5% para 16,25% ao ano no mês passado e de a taxa média de inadimplência ter recuado de 8,4% em fevereiro para 7,9% em março.

Segundo dados divulgados ontem pelo BC, a taxa anual média cobrada subiu de 45,1% em fevereiro para 45,3% em março. Desde fevereiro de 2003 os juros bancários vinham apresentando trajetória de queda.

A reversão dessa trajetória foi influenciada principalmente pela elevação dos juros cobrados de empresas, que na média avançaram de 30,2% para 30,4% ao ano.

No mesmo período, o “spread” (diferença entre a taxa de captação de recursos no mercado e as cobradas pelos bancos de seus clientes) – que, no Brasil, já era o maior do mundo, segundo dados do FMI (Fundo Monetário Internacional) – subiu de 29,4 para 29,5 pontos percentuais.

O chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Altamir Lopes, explicou que o crescimento dos juros com a maior expectativa de valorização do dólar encareceu empréstimos indexados à moeda norte-americana.

Segundo o BC, a taxa média de empréstimos com juros pós-fixados (os mais atrelados ao dólar) subiram de 19,2% em fevereiro para 20,3% em março, enquanto as demais modalidades de crédito ficaram mais baratas para o tomador.

Por esse motivo, Altamir prevê o retorno à trajetória de redução das taxas nos próximos meses. “Se analisarmos a série histórica, ainda há espaço para a redução dos juros”, disse.

Pessoa física

Os juros cobrados de consumidores caíram de 64,2% em fevereiro para 64% em março. A taxa média do cheque especial – modalidade de crédito mais utilizada por pessoas físicas – recuou de 142,9% para 142% ao ano. Nos nove primeiros dias úteis de abril houve novo recuo, para 139,9%.

Segundo Altamir, as famílias aproveitaram essa queda dos juros e lideraram o crescimento do crédito tanto em março como no começo de abril. Enquanto o volume de endividamento total cresceu 1,7% no mês passado, o crédito a pessoas físicas avançou 2,6%.

Empréstimo com desconto ganha adeptos

Os empréstimos com desconto em folha de pagamento têm registrado altas taxas de crescimento nos últimos meses e já representam uma das principais modalidade do crédito pessoal. As conclusões são do chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Altamir Lopes, que divulgou ontem o primeiro balanço sobre a evolução dos empréstimos com desconto em folha.

Em março, os bancos emprestaram na forma de crédito pessoal R$ 33,182 bilhões. Somente os bancos incluídos na pesquisa concederam R$ 22,640 bilhões em empréstimos. Desse total, 29% dos recursos liberados, ou R$ 6,650 bilhões, corresponderam a empréstimos com desconto em folha.

Altamir disse ainda que o crescimento do estoque desses empréstimos atingiu 11% em março, um percentual bem superior, por exemplo, à alta do cheque especial (5,2%) ou do crédito para aquisição de veículos (2,6%).

A principal vantagem do desconto em folha são os juros mais baixos. Pelo fato de o tomador ter automaticamente subtraído de seu salário mensal a parcela do empréstimo a ser paga, há menores perdas com inadimplência para o bancos e juros menores para o consumidor.

Altamir admitiu, entretanto, que os principais tomadores de empréstimos com desconto em folha são funcionários públicos, que, por terem estabilidade no emprego, acabaram tendo acesso a créditos mais baratos.

Além disso, o chefe do departamento do BC afirmou que muitos empregados com carteira assinada ainda não conseguem tomar empréstimos com desconto em folha devido à falta de acordo entre bancos, centrais sindicais e as empresas em que trabalham para definir as condições para a liberação dos recursos.

BB

O Banco do Brasil informou ontem que neste mês o volume de crédito concedido por meio do desconto direto em folha superou R$ 1 bilhão.

Desde que a lei que regulamenta essa forma de crédito passou a vigorar, em novembro de 2003, o número de contratações cresceu de 220 mil para 300 mil.

“A tendência é o crescimento acentuado desses números, à medida que novos convênios sejam firmados e aumente o número de trabalhadores habilitados para solicitar o empréstimo”, diz o BB, em nota divulgada ontem.

Veículos

Nos financiamentos de veículos, o juro médio cobrado em março foi de 35,1% ao ano, também próximo do nível mais baixo apurado pelo BC, que foi de 33,6%, em março de 2001. “Estamos voltando ao quadro de 2001, que foi o melhor em termos de taxas praticadas”, destacou Lopes.

Para o chefe do Depec, a recuperação do volume de crédito para as famílias é uma característica tradicional dos processos de retomada da atividade econômica. “A segunda fase do processo será o aumento de crédito para as empresas que aplicarão esses recursos em novos investimentos”, acredita. Outro fator importante, na visão do chefe do Depec, é a ampliação dos prazos médios de financiamento, tanto para as empresas como para o cidadão comum. “Estamos reduzindo taxas e dilatando prazos, o que é um quadro bastante razoável”, comentou.

Mercado eleva previsão para IPCA em 2004

O mercado financeiro voltou a ajustar para cima suas projeções de inflação deste ano. As instituições ouvidas em pesquisa semanal do Banco Central (BC) elevaram de 6,14% para 6,17% a projeção para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2004. O aumento deixou a previsão ainda mais distante do centro da meta de 5,5% estabelecida pelo governo e mais próxima dos 6,2% calculados pelo BC no último Relatório de Inflação, com base num cenário de mercado.

Por esse cenário, a taxa básica de juros (Selic) estaria em 14% no último trimestre deste ano e a taxa de câmbio encostaria em R$ 3,07 por dólar. Na pesquisa divulgada ontem (26) o cenário usado pelo mercado previa juros a 14% no fim do ano e câmbio a R$ 3,05.

As previsões de inflação para 2005 continuaram em 5% pela quadragésima segunda semana consecutiva. Apesar de estável, o percentual previsto também supera a meta de 4,5% fixada para o próximo ano. A projeção, entretanto, seria condizente com a proposta do senador Aloizio Mercadante (PT-SP) de adoção de uma meta de 5,5% para 2005.

No último Relatório de Inflação, o BC estimou que o IPCA de 2005 fecharia em 5,4%, com juros de 12,6% e câmbio a R$ 3,24 no último trimestre do próximo ano. A pesquisa divulgada ontem leva em conta uma projeção de mercado de juros de 12,75% e uma taxa de câmbio de R$ 3,20 no final de 2005.

O mercado também puxou para cima a estimativa do IPCA dos próximos 12 meses, que passou 5,58% para 5,67%. O novo percentual projetado pelos bancos está 0,42 ponto percentual acima do ponto da trajetória calculada para o cumprimento das metas do governo, de 5,25% nos 12 meses à frente. Na semana passada, essa diferença era de apenas 0,33 ponto percentual.

A estimativa de IPCA para maio seguiu a mesma tendência de alta e avançou de 0,38% para 0,40%. Apesar disso, a previsão ainda é inferior ao 0,48% previsto para este mês. A projeção de reajuste dos preços administrados, como energia e telefone, por sua vez, permaneceu em 7,20% para este ano e em 6% para 2005.

Juros

Apesar do maior pessimismo em relação ao comportamento da inflação, as instituições ouvidas pelo BC mantiveram a expectativa de queda de 0,25 ponto percentual da Selic na reunião de maio do Comitê de Política Monetária (Copom). Com isso, a taxa recuaria dos atuais 16% para 15,75%, o nível mais baixo desde março de 2001. Naquela ocasião, os juros foram elevados de 15,25% para 15,75% ao ano. A previsão do mercado para a Selic no final do ano foi mantida em 14% pela quinta semana consecutiva, embutindo, portanto, expectativa de queda de 2 pontos percentuais até o fim do ano.