aeroporto220405.jpg

Aviões de todas as companhias
convivem diariamente com as
plantações à beira da pista.

Quem passa pela Avenida Rui Barbosa, próximo ao Aeroporto Internacional Afonso Pena, ou mesmo quem chega de avião, facilmente nota dentro dos campos da Infraero várias áreas de plantações de soja, que atravessam atualmente o período de colheita. É que há três anos o produtor João Bortolozzo ganhou uma licitação pública que o permite cultivar produtos agrícolas na área. ?É a única fazenda que possui duas pistas de pouso, de 2.500 e 1.800 metros?, brinca Bortolozzo.

O produtor está colhendo a sua terceira safra de soja, que segundo ele, é metade orgânica e metade convencional. São 210 hectares cultivados, que deverão ser ampliados para 300 na próxima safra. Após o término da colheita, ele irá preparar os campos do aeroporto para receber culturas de inverno, como trigo, aveia e triticale.

A escolha dos produtos que são plantados se deve a uma das normas colocadas para que se pudesse usar o campo. Os produtos não poderiam atrair pássaros ou animais silvestres e nem pessoas, pois a segurança e as atividades do aeroporto não deveriam ser afetadas. Assim, segundo Bortolozzo, a idéia de cultivar milho foi descartada logo que começou a plantar no local, pois poderia atrair facilmente pessoas ou animais. ?Fazemos o gerenciamento de pássaros como quero-quero e o carancho, para que não causem problemas ao aeroporto?.

O produtor, que possui a concessão de arrendamento até 2012, afirma que tem tido bons resultados de produtividade, conseguindo em média de 60 a 70 sacas de soja por hectares. ?A terra é bastante fértil e úmida. Nunca fica seca?, afirma. Se por um lado há a vantagem de não faltar água, o excesso de umidade acaba por gerar algumas dificuldades como a incidência de doenças na soja, que acontecem com um pouco mais de freqüência que em outros lugares. Devido à umidade, o tempo para a realização de colheita é menor. ?Só podemos colher a soja entre 11h e 19h?.

Há 11 anos trabalhando com lavouras, o produtor conta que começou a fazer estudos para um projeto de cultivo na área em 1997, pois havia constatado que o terreno era propício para a mecanização. ?Fiz a sugestão para a Infraero. Passados cinco anos, a Infraero abriu uma licitação e eu consegui ganhá-la?, diz Bortolozzo.

Segundo o superintendente dos aeroportos Internacional Afonso Pena e do Bacacheri, Antônio Filipe Barcellos, a primeira vez que o local foi utilizado para cultivo foi no final da década de 70. Mas foi por pouco tempo. Ele diz que atualmente 14 dos 66 aeroportos brasileiros possuem contratos de concessão para agricultura. ?As vantagens são a diminuição nos custos de manutenção da área, a recuperação do solo e impedimento de erosão, melhoria de segurança da área?, enumera.

Barcellos diz que é um projeto que atende os interesses da empresa, pois há também o retorno financeiro de concessão do uso da área. ?O espaço deixa de ser um local só para pouso e agrega outras atividades?, afirma.

Pesquisa sobre manejo de pragas

Quando passou pela Avenida Rui Barbosa e observou a plantação de soja no terreno do aeroporto, o professor do Departamento de Zoologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e PhD em Entomologia pela Universidade de Londres, Luís Amilton Foerster, ficou surpreso e satisfeito com a descoberta. Pois, até então ele precisava sempre ir até a Lapa para prosseguir com suas pesquisas sobre manejo de pragas em lavouras de soja. Ele fez contato com o departamento de engenharia do meio ambiente da Infraero e com o produtor e continuou a fazer suas pesquisas ali mesmo.

A importância do estudo, conforme Foerster, está no fato de que contribuirá para a diminuição de aspersão de inseticidas na região. Foerster lembra que como é uma área residencial, ao diminuir a quantidade de pesticidas, é possível minimizar eventuais problemas de saúde que os produtos químicos pudessem causar.

Segundo ele, a pesquisa que está começando nas plantações do aeroporto tem o objetivo de realizar o controle integrado, que possibilitará cultivar soja com o uso de menos produtos químicos, ao utilizar predadores naturais, parasitóides e agentes patógenos no combate a pragas. ?Há um verdadeiro exército de predadores como besouros e percevejos, além de várias espécies que usam o corpo de pragas para depositar ovos que irão se desenvolver, como moscas e vespas?, afirma.

O estudo começou no fim dessa última safra. Foerster diz que a pesquisa está em fase de levantamento das principais pragas e inimigos naturais que vivem no ambiente do aeroporto. Ele afirma também que irá prosseguir os trabalhos na safra de trigo e pretende acompanhar a próxima safra de soja desde o seu início. (RD)