Lula: “O Brasil está andando no hospital”.

São Paulo – Em discurso na sede da Mercedes-Benz em São Bernardo na manhã de ontem, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva brincou com os integrantes do sindicato dos metalúrgicos que estavam presentes. Parte dos trabalhadores usava camisetas pedindo aumento do salário mínimo, e outra parte reivindicando a redução da alíquota do imposto de renda. “Ou seja, eu reduzo o que o governo ganha e aumenta a despesa”, provocou.

No entanto, ele falou que, no que se refere à revisão da tabela do IR, pode haver uma solução até a próxima sexta-feira. “Quem sabe o Feijó não tem uma boa notícia na sexta”, disse, referindo-se ao presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, José Lopez Feijó, que entregou a reivindicação.

Sabendo dos planos dos metalúrgicos de fazerem uma passeata para pedir a redução, Lula não perdeu a oportunidade de brincar com os ex-colegas. Ele afirmou que talvez a notícia venha a tempo de tornar a caminhada desnecessária, mas caso contrário não será desperdiçada: “Eu tô vendo muito companheiro com a barrigada grande aí”. Lula lançou ontem a rede nacional do Samu, sistema de atendimento médico de urgência que hoje existe em onze localidades, mantidos por estados e municípios. Com a adesão do governo federal, a previsão é de que o programa atinja 229 municípios até o final de julho.

Provocado por metalúrgicos que exibiam cartaz com a inscrição “Xô leão, salário não é renda”, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em discurso na fábrica da Mercedes-Benz do Brasil, disse que pagar imposto de renda é um privilégio. “No Brasil não houve distribuição de renda por muitos anos e a grande maioria do povo ficou marginalizada do processo de pagar imposto de renda. São privilegiados aqueles que podem pagar imposto de renda porque ganham um pouco mais. Todo mundo que ganha um salário mínimo adoraria ganhar o que ganham os metalúrgicos para pagar imposto de renda”, afirmou o presidente.

Lula, porém, admitiu que é preciso fazer mesmo uma correção na tabela do imposto. “Temos que delimitar qual o salário que paga e o que não paga. Muitas vezes o trabalhador faz 30 horas extras e o pouquinho que ele ganha a mais fica no imposto de renda e é uma forma injusta de taxar a parte da sociedade que vive do salário”, disse.

Lula também usou uma metáfora para dizer que a economia já se recuperou, depois da forte crise em que se encontrava quando assumiu a presidência: “O Brasil já saiu da UTI econômica em que estava quando assumi e hoje já está caminhando pelos corredores do hospital”.

“Primeiro Emprego não funciona”

São Paulo

– O presidente Luiz Inácio Lula da Silva admitiu ontem, durante discurso em São Bernardo do Campo (ABC Paulista), que há erros no programa Primeiro Emprego, lançado como uma das prioridades de sua gestão, e disse que enviará ao Congresso Nacional uma proposta que altera o projeto. “Estamos mandando para o Congresso Nacional uma mudança na lei do Primeiro Emprego. E por que estamos fazendo as mudanças? Porque do jeito que nós mandamos na primeira vez pensamos como sindicalistas”, disse.

Lula afirmou que, do modo como estava previsto, o programa afastou os empresários, pois não permitia que eles demitissem os funcionários. “Nós mandamos uma lei que dizia que o empresário não podia mandar um outro trabalhador embora. Significa que a lei está bonita, perfeita, mas o empresário não contratou ninguém. Por que? Porque ele não quer assumir o compromisso de que ele não pode mandar ninguém embora.” Lançado em 30 de junho de 2003 e sancionado em outubro pelo presidente como uma das prioridades de seu mandato, o programa Primeiro Emprego pretende obter vagas para 250 mil jovens até o final de 2004. Mas havia conseguido criar – e pagar – até o dia 21 de março deste ano, um único emprego.

Lula também disse ontem que o governo federal estuda a possibilidade de as Forças Armadas dobrarem o número de recrutas a serem convocados anualmente no País. A intenção, disse o presidente, é que, em vez de convocar 50 mil recrutas, o Exército requisite 100 mil jovens. “Queremos pegar 50 mil a mais desde que o critério de escolha seja o de convocar adolescentes dos grandes centros urbanos, que estão mais perto da violência e do narcotráfico”. Segundo Lula, esses jovens serviriam o Exército de uma maneira diferente da dos recrutas tradicionais. “Eles iriam aprender uma profissão e sair das Forças Armadas com mais chances de emprego”, disse.