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Bono Voz e Lula se cumprimentam, observados Bill Gates.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou, na tarde de ontem, da abertura da sessão especial "Financiando a Guerra Contra a Pobreza" no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. Lula voltou a pedir ajuda dos países ricos para combater a fome mundial e apresentou números positivos da economia brasileira. O presidente sugeriu aos chefes de Estado a criação de um fundo de combate à pobreza, sem que seja construída junto uma nova estrutura.

"A primeira coisa que precisamos ter claro é o seguinte: é preciso que não criemos uma nova estrutura para cuidar de qualquer fundo, porque uma nova estrutura vai gastar metade do dinheiro com a burocracia", afirmou, acrescentando que poderia aproveitar os fundos já existentes das Nações Unidas.

Pela proposta do presidente, o dinheiro para o órgão poderia vir da comercialização de armas ou de transações financeiras. "(Poderia ser) Uma coisa que fosse substancialmente forte, dirigida para os países mais pobres, criar organismos multilaterais, junto com países (ricos) coordenando a utilização desses recursos para saúde ou educação", sugeriu Lula, que acredita que só dessa maneira "daqui a 10, 20 anos os países beneficiados não precisarão mais de ajuda".

Lula afirmou ainda que a atual política de doação de recursos é "dispersa", sem direção, facilitando que o dinheiro se perca. "Eu imagino que não tem uma única forma de contribuição."

Em uma fala mais contida em relação ao discurso que fez no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, quando o presidente arriscou algumas palavras de improviso, Lula cobrou o fim dos subsídios agrícolas dos países ricos. "Essa é uma coisa estrutural que pode ajudar e muito os países pobres", argumentou.

Ainda sobre a fome, o presidente avaliou que houve um "relativo avanço" em relação a sua última participação em Davos, em 2003. "A fome não é um problema de quem está com fome. A fome é um problema de quem está comendo. Nós é que temos que assumir a responsabilidade de estender a mão àqueles que não estão comendo", afirmou.

Balanço

Após o discurso de abertura, Lula falou novamente para os participantes do fórum. O presidente fez um balanço dos seus dois anos de governo, mencionando a queda da inflação, o crescimento econômico, o aumento da produção industrial e a geração de empregos.

Lula também ressaltou que o Brasil recebe, atualmente, mais investimentos externos e exaltou a produção da safra agrícola, quase sempre comparando os índices de 2002 e 2004. "Fizemos com que o Brasil tivesse uma forte política de investimentos. Estamos modernizando os portos, ferrovias e aeroportos para escoar melhor a produção."

Durante o discurso, o presidente falou também sobre os programas de transferência de renda e sobre o Prouni (Programa Universidade para Todos).

Presidente pede perdão das dívidas

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu, em discurso no Fórum Econômico Mundial, o perdão da dívida dos países mais pobres do mundo, como já fez o Brasil em relação à Bolívia e ao Gabão.

"Os países que estão pagando (dívida), mais pobres, o Fundo Monetário, ao invés de receber, deveria fazer um acordo para que aquele dinheiro fosse investido em educação, um acordo para que aquele dinheiro fosse investido na agricultura familiar, em pesquisa interna, porque traria muito mais benefício para o próprio Fundo, porque, senão, fica eternamente a espada na cabeça do país, ou seja, o país nem paga e nem progride", disse.

Para Lula, quando a miséria deixar de ser vista como um problema apenas social e passar a ser um problema político, a questão vai ser resolvida.

"Eu penso que, na medida em que se transforma num problema político, eu sou otimista e acho que nós vamos dar passos extraordinários para essa ajuda aos países mais pobres", completou.

Elogios e encontros de negócios na agenda

O vocalista da banda U2, Bono Vox, disse, ontem, em entrevista a jornalistas brasileiros, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é um "grande homem e que mudou a agenda de Davos". O cantor irlandês é uma das personalidades que participam do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, e vem defendendo questões ligadas à área social. Anteontem, ele participou de uma palestra sobre a África ao lado do primeiro-ministro britânico, Tony Blair, dos presidentes da África do Sul, Thabo Mbeki, e da Nigéria, Olusegun Obasanjo, além do fundador da Microsoft, Bill Gates, e do ex-presidente americano Bill Clinton.

Lula é também um dos destaques do encontro e tem levado a Davos a discussão de temas sociais. Em 2003, ele apresentou proposta de criação de um fundo mundial de combate à fome e à pobreza.

Desta vez, o presidente terá em Davos duas missões complexas. A primeira, tentar mais uma vez convencer chefes de Estado e líderes empresariais a lançar uma "guerra" mundial contra a fome e a pobreza.

Lula também quer atrair investimentos para o País, sob a bandeira das PPPs (Parcerias Público-Privadas) e da perspectiva de crescimento sustentado da economia.

Os ministros Luiz Fernando Furlan (Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior) e Celso Amorim (Relações Exteriores), além do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, já estão no local do fórum.

Ontem, Lula teve um encontro com o chanceler Gerhard Schröder, chefe de governo da Alemanha, no hotel Belvedere. Depois, participou do debate "Financiando a Guerra contra a Pobreza" e fez seu discurso.

À noite, Lula ainda se reuniu com Samuel Schmid, presidente da Confederação Helvética, e com Thabo Mbeki, presidente da África do Sul.

Pela manhã, Amorim e o vice-presidente de Relações Exteriores do Banco Mundial, Ian Goldin, assinaram instrumento de co-financiamento para a implementação, a partir de fevereiro, de projetos sociais no Haiti.

Hoje, Lula tem encontro reservado com investidores no hotel Belvedere, seguido de sessão plenária e almoço.