O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez nesta segunda-feira (2) um discurso contra o protecionismo, uma das alternativas historicamente utilizadas pelos países para enfrentar crises econômicas. Lula ressaltou que nenhum país tem a “saída perfeita” para a crise e que cada um está tomando as medidas adequadas para a sobrevivência de sua economia, mas ponderou que a adoção de medidas protecionistas não é a solução e que isso pode agravar ainda mais a situação dos mercados.

“Nós não temos o direito de aceitar o protecionismo como solução para essa crise. Pode ser que uma ou outra empresa esteja a exigir de nós maiores cuidados internos, mas o protecionismo certamente levará a um aprofundamento dessa crise”, afirmou, após reunir-se com o primeiro-ministro dos Países Baixos, Jan Peter Balkenende, na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), em São Paulo.

“Se os americanos se fecharem, se a Europa se fechar, se Brasil se fechar, a crise ganhará uma dimensão muito maior e aí ao invés de solução, nós poderemos ter o caos. Portanto, a saída para essa crise é mais mercado, mais livre comércio e mais concorrência”, acrescentou.

Lula disse que a crise internacional trouxe a oportunidade para que os países possam discutir em fóruns econômicos a criação de uma nova regulamentação sobre o sistema financeiro e paraísos fiscais. Além disso, ele destacou que é necessário repensar o papel dos bancos centrais e do Fundo Monetário Internacional (FMI). “Essa crise talvez seja a lição do século 21”, afirmou. Segundo ele, será preciso tomar medidas políticas, além das econômicas, para que haja a retomada da confiança nos mercados.

Solidez

Ao falar sobre os problemas que alguns dos principais bancos do mundo estão enfrentando em razão da crise internacional e sobre as discussões a respeito da estatização dessas instituições, o presidente Lula voltou a dizer que o sistema financeiro brasileiro é sólido, principalmente em razão da importância dos bancos públicos na economia.

“O dado concreto é que no Brasil temos um exemplo da solidez do sistema financeiro, certamente calcado em bancos públicos”, afirmou. Lula disse que mais de 50% do crédito no País é concedido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), pelo Banco do Brasil (BB) e pela Caixa Econômica Federal (CEF) e que essas instituições são as mais ligadas aos investimentos públicos, agricultura, habitação e saneamento básico. Na avaliação dele, isso dá segurança para que o País olhe para o futuro.

Lula reconheceu, no entanto, que há problemas na área de crédito, principalmente pelo fato de grandes empresas brasileiras, como a Petrobras, terem de recorrer ao mercado interno para obter financiamentos. O presidente disse que esse foi um dos motivos do aumento dos spreads (diferença entre as taxas de captação e repasse ao consumidor). “Esse é um problema que temos que resolver” afirmou. “O Brasil não está ilhado, faz parte de mundo globalizado e não está livre dessa crise. A diferença é que, enquanto alguns países entrarão em recessão, o Brasil sofrerá uma desaceleração do crescimento”, declarou.

Lula disse ainda que o Brasil não reduzirá “nem um dólar” dos investimentos previstos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e pela Petrobras. “E para mostrar que não estamos brincando, vamos anunciar nos próximos dias um programa de construção de um milhão de casas populares”, afirmou. “Estamos há alguns meses discutindo também um programa para a renovação da frota de caminhões, geladeiras e fogões”, destacou.