O ministro da Fazenda, Guido Mantega, jogou mais uma vez um balde d’água fria naqueles de que defendem o aumento do superávit primário das contas do setor público como medida auxiliar para resolver o problema do câmbio no Brasil. Mantega classificou de equívoco “essa história” de que é preciso reforçar a política fiscal como medida para evitar a apreciação do real frente ao dólar. “Não tem nada uma coisa a ver com a outra”, disse.

No raciocínio do ministro, o sistema de metas não se move pelo gasto fiscal, mas sim pela inflação. Ele disse que o Banco Central tem de olhar para a inflação ao decidir sobre a taxa de juros e que a inflação no Brasil está sob controle. “É claro que se tiver gastos fiscais desgovernados, a inflação sobe. Não é o caso do Brasil. A inflação está sob controle”, declarou. O ministro comentou os recentes aumentos dos preços dos alimentos principalmente arroz e feijão e brincou: “O brasileiro está comendo demais”.

Em seguida, explicou que os alimentos têm variação sazonal de entressafra e lembrou que no começo do ano os alimentos pressionaram para cima a inflação, depois pressionaram para baixo e agora voltam a pressionar para cima. Mas ressaltou que não se trata de inflação de demanda. Ele insistiu na tese de que os gastos do governo não têm impacto inflacionário e disse que a inflação não está se movendo no País por causa de demanda. E ponderou ainda que não significa que não haja preocupação com o gasto fiscal do governo, declarando que o Ministério da Fazenda é o que mais se preocupa com os gastos fiscais.

O ministro da Fazenda disse que o Brasil está fazendo superávit primário e ponderou que os EUA, por exemplo, apresentam déficit fiscal e nem por isso estão elevando os juros porque “não é por aí”.

Curto prazo

Mantega disse que as medidas tomadas pelo governo recentemente têm o câmbio como objetivo e não buscam afugentar o investidor estrangeiro no País. “Não queremos estancar o fluxo de capital estrangeiro para o Brasil, vamos deixar isso claro”, disse. “Procuramos atingir apenas o capital de curto prazo”, acrescentou.

Na avaliação de Mantega, é inevitável que o fluxo de capital estrangeiro continue a ter o Brasil como destino, pois o País está em fase de crescimento e apresenta bases sólidas. Ele previu que a média de investimento estrangeiro direto ao ano fique entre US$ 30 bilhões e US$ 35 bilhões. “Queremos fluxo positivo e o Brasil é um dos Brics com menos restrições ao fluxo estrangeiro”, disse.

O ministro disse que o Brasil “dispensa” o capital que entra e sai do País com frequência e rapidez. “O capital pode continuar a vir, mas que não venha em enxurrada”.

O governo pretende colocar mais títulos em reais no mercado internacional, informou o ministro. “Já definimos essa política e faremos a colocação com mais frequência, já este ano”, disse ele, destacando que isso ajuda a aliviar a pressão sobre o câmbio.

O ministro lembrou que essa política foi iniciada recentemente, com a emissão equivalente a US$ 1 bilhão – os bônus com vencimento em 2028. Mantega evitou comentar, no entanto, quais serão as datas de vencimento dos próximos lançamentos. “Os técnicos do Tesouro vão avaliar a necessidade”, completou o ministro da Fazenda.