O vice, José Alencar, foi repreendido
pelo presidente Lula.

As críticas do vice-presidente da República, José Alencar, à competência do Banco Central – que decidiu manter a taxa de juros em 26,5% na última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) – foram respondidas pelo presidente da instituição, Henrique Meirelles, e expuseram o racha dentro do governo em relação à condução da política monetária. Meirelles afirmou ontem que o “sucesso” da política de juros da instituição será definido a partir do controle da inflação.

“O que define ou não a competência do BC é o seu sucesso ou não no cumprimento da sua missão básica, que é o controle da inflação. Portanto, é isso que vai decidir o nível de competência desta ou de qualquer administração ou de qualquer BC”, afirmou.

O presidente do BC disse, também, que não haverá mudança na meta ajustada de inflação para este ano, de 8,5%. Ele preferiu não detalhar o assunto, alegando que isso anteciparia a ata do Comitê de Política Monetária (Copom), a ser divulgada na próxima semana.

Anteontem, Alencar, quando indagado se faltava “competência” ao BC, disse: “Claro que está”. Também falou, pedindo queda dos juros, que, “se não tivermos coragem de defender nosso País, temos de pedir desculpas aos 175 milhões [de brasileiros] e voltar para casa”.

As declarações levaram Lula a repreender Alencar. No entanto, isso não foi suficiente para evitar que o vice-presidente mantivesse o “coro” pelo juro menor após o BC anunciar no início da tarde de anteontem a manutenção da taxa em 26,5% ao ano.

“Sempre critiquei, a minha vida inteira. Acho que as críticas contribuem. Tenho compromisso com a minha história de vida”, disse Alencar após a reunião do Copom (Comitê de Política Monetária).

As críticas duras e a pressão pela redução dos juros não são exclusividade do vice-presidente. Outros integrantes do governo, como o ministro Ciro Gomes (Integração Nacional), já se manifestaram publicamente pela queda da taxa básica de juros.

Divisão

Após responder diretamente as críticas de Alencar, Meirelles negou uma divisão no governo. “O BC deve estar preparado para estar no centro dos assuntos. Nossa posição é de serenidade e de tranqüilidade”, afirmou o presidente do BC.

Meirelles classificou as críticas à instituição como “um apelo para que se trabalhe pela queda dos juros a longo prazo”, mas disse que não cabe ao BC definir quem no governo está autorizado a comentar a competência da autoridade monetária.

“Não é de competência do BC decidir se uma autoridade deve ou não falar sobre cada assunto”, disse.

BC anuncia novos diretores

O presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, confirmou nesta quinta-feira a saída do diretor de Política Econômica, Ilan Goldfajn, em plena controvérsia pela decisão da instituição de manter a taxa de juros.

Em coletiva de imprensa, Meirelles explicou que tinha chegado a um acordo com Goldfajn no ano passado – quando o País passava por uma grave turbulência financeira em meio à desconfiança de analistas em relação ao governo de esquerda do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que assumiria em janeiro – para que continuasse no cargo por mais seis meses.

“Convidei-o a permanecer por um período de transição, de seis meses”, declarou Meirelles, que garantiu que o sucessor, Afonso Beviláqua, tem “um perfil ideal para a função”.

A nomeação do novo diretor, que foi economista do Fundo Monetário Internacional (FMI) e é doutor em Economia pela Universidade de Berkeley, foi considerada pelos analistas como um sinal da continuidade da política econômica.

A Fazenda também informou a indicação de um novo diretor para o BC: Eduardo Loyo vai comandar a Diretoria de Estudos Especiais. Essa diretoria já existia, mas só foi ocupada uma vez, durante o período de transição para o governo Lula, pelo ex-diretor de Política Monetária Luiz Fernando Figueiredo.

Segundo a Fazenda, os dois nomes ainda precisam ser aprovados por Lula. Os diretores também deverão ser sabatinados pela Comissão de Assuntos Econômicos do Senado para, depois, terem suas indicações votadas.