Depois de operar com bastante volatilidade, mas dentro de uma faixa limitada durante a maior parte do dia, o dólar fechou ontem em alta de 1,82%, cotado a R$ 3,92 para venda e R$ 3,915 para compra. A pressão veio do vencimento de uma dívida cambial de US$ 3,6 bilhões hoje. O resgate desse valor hoje leva alguns grandes investidores a tentar inflar a cotação do dólar para receber mais dinheiro na liquidação, que é feita em reais. A bolsa fechou em queda de 1,59%, com movimento de R$ 705 milhões em 8.370 pontos.

O valor do dólar utilizado no resgate é determinado pela Ptax (taxa média do dólar compilada pelo BC durante todo o dia) do dia anterior. O Banco Central completou, com mais duas operações, o alongamento de 61,6% da dívida. Entretanto, a segunda operação, ontem à tarde, teve um resultado pouco expressivo – o BC aceitou rolar apenas US$ 83,5 milhões do vencimento.

Parte do impulso da cotação do dólar ocorre porque, com títulos que vão vencer em mãos, alguns investidores passam a substituir o ??hedge?? (proteção cambial) em papel por dólares. Por outro lado, o mercado tem cobrado taxas muito altas para aceitar o prolongamento da dívida, que demonstram desinteresse pelos papéis cambiais do governo. O BC tem recusado essas taxas.

A expectativa era que o dólar fechasse ontem mais próximo da estabilidade, como aconteceu anteontem, com o contrapeso das vendas por instituições que precisam se adequar às novas regras de exposição cambial do BC, que permitem uma aplicação máxima em dólar equivalente a 30% do patrimônio de cada instituição.

“O problema é que o BC tem feito tudo ao contrário que o mercado esperava. Acharam que ele ia intervir pesado no câmbio durante a manhã, e ele vendeu pouco, achamos que ia resgatar a dívida, e ele decidiu rolar??, afirmou Miriam Tavares, diretora da corretora AGK.

Outros operadores também afirmaram que a venda de dólares à vista pelo BC, confirmada pela autoridade monetária, foi reduzida. Além disso, não foram leiloadas as linhas de financiamento às exportações, como ocorre quase diariamente.

Alta do juro não visou o câmbio

Brasília

(AE) – A elevação da taxa básica de juros, de 18% para 21% ao ano, anunciada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) na segunda-feira, teve por objetivo evitar uma escalada inflacionária no próximo ano. É isso que fica claro na curta ata da reunião extraordinária do Copom, divulgada ontem pelo Banco Central. O presidente do BC, Armínio Fraga, e os diretores da instituição chegaram à conclusão de que, para trazer a inflação do ano que vem de volta para a meta ajustada, que é de 5%, a política monetária tinha de ser mais apertada.

“O aumento da projeção de inflação para cima da meta ajustada para 2003 recomenda uma política monetária mais restritiva, mesmo que a causa primária da inflação não esteja relacionada com um aumento da demanda, mas sim com o efeito sobre os preços domésticos de uma depreciação cambial significativa”, diz a nota. A diretoria do BC baseou-se em dados que apontam a elevação das expectativas do mercado para o Índice de Preços do Consumidor Ampliado (IPCA) para o próximo ano, que subiu de 5,2% para 5,9% desde 16 de setembro.

O centro da meta de inflação para 2003 é de 4%, com tolerância de 2,5% para cima ou para baixo, ou seja, poderá oscilar entre 1,5% e 6,5%. O BC, no entanto, está mirando na meta ajustada, divulgada pelo diretor de Política Econômica, Ilan Goldfajn há duas semanas, que é de 5%.

De acordo com os diretores do BC, entre as duas últimas reuniões do comitê houve uma desvalorização adicional do real, com a cotação do dólar situando-se próximo a R$ 3,90. Ao mesm o tempo, a projeção de inflação também aumentou.

Segundo a diretoria do BC, o Copom vinha baseando suas projeções em um cenário básico em que “a transição para o futuro governo ocorreria sem turbulências exageradas ou prolongadas”. Não é isso o que vem ocorrendo. “O aumento do grau de incerteza observado nos últimos meses tem diminuído a probabilidade de concretização desse cenário básico”, afirma a nota.

O BC explicou que, se a taxa Selic fosse mantida em 18% ao ano, haveria um estímulo para o repasse da depreciação cambial e a propagação dos reajustes dos preços. Os membros do Copom enfatizaram que o aumento da taxa de juros não visou provocar uma queda na taxa de câmbio.