Desde julho do ano passado, economistas do mercado financeiro levam um susto a cada 15 dias quando olham o resultado da inflação oficial do País. Em todos os casos, sem exceção, o IPCA e o IPCA-15 ficaram acima das expectativas e a diferença entre o que era previsto e o que de fato ocorreu pode chegar a 1,2 ponto porcentual, na inflação acumulada no período, de acordo com alguns cálculos.

A preocupação é tanta que o tema foi levado por diferentes analistas ao Banco Central na sexta-feira, durante reunião realizada em São Paulo. O diretor de Política Monetária do BC, Carlos Hamilton Araújo, ouviu as avaliações sem fazer comentários. A assessoria de imprensa do BC informou que a autoridade monetária não comenta avaliações de analistas.

“Esse descompasso que ocorreu é impressionante”, disse o economista-chefe do Votorantim Wealth Management, Fernando Fix, que fez um dos levantamentos apresentados ao BC.

Analistas não são infalíveis em suas estimativas, mas uma série de erros sempre para o mesmo lado levantou a tese entre os profissionais da área de que a culpa não é dos modelos usados pelas instituições financeiras, mas, sim, da coordenação das expectativas do governo sobre o controle da alta dos preços. “O indício é de que há piora no ambiente inflacionário”, considerou Fix.

Sem âncora

De acordo com o economista, a cada mês, os indicadores vêm mais fortes e, então, os analistas percebem a diferença e incorporam essa informação mais negativa em seus modelos, mas ainda assim são surpreendidos na divulgação seguinte: “As expectativas estão cada vez mais desancoradas e a diferença sempre para o mesmo lado é mais preocupante do que simplesmente errar”.

Ainda que normalmente as projeções do mercado se descolem do dado efetivo, esses desvios são vistos ora para cima e ora para baixo. No longo prazo, segundo Fix, a tendência é a diferença entre uma série de indicadores e suas previsões fique em torno de zero. “O que é pouco usual é o que ocorre agora: um período tão longo de surpresas apenas para cima.”

Fatores

Para o economista da LCA Consultores, Bráulio Borges, três pontos podem explicar as taxas acima das previsões nestes últimos meses. O primeiro é a alta do preço do milho e da soja no mercado internacional, que acabou contaminando os preços internos. O segundo é a depreciação cambial, que só no segundo semestre do ano passado foi de 10%. Apenas o efeito desses dois fatores representaram, conforme Borges, 1,5 ponto porcentual da alta de 5,8% do IPCA em 2012. Ou seja, sem esses impactos, o índice ficaria em 4,3%, abaixo do centro da meta de 4,5%.

O terceiro ponto, lembrou o consultor da LCA, é mais difícil de contabilizar. É que, segundo ele, a nova lei para os caminhoneiros, que desde meados do ano passado têm jornada de trabalho mais leve, também acabou interferindo nos preços. “Não dá para saber exatamente quanto, mas temos informações de que isso encareceu o frete”, considerou.

A expectativa do economista da Votorantim é a de que o BC comece uma reação de ancoragem das expectativas do mercado. Principalmente porque esse descasamento com a realidade está ocorrendo por um período prolongado. “Estou mais confiante depois da ata mais recente do Comitê de Política Monetária (Copom)”, disse. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.