O presidente Luiz Inácio Lula da Silva espera que, após a crise global, surja uma sociedade que beneficie a produção, e não a especulação, na qual a função do setor financeiro seja estimular a atividade econômica – ainda assim sob controle rigoroso nacional e externo de organizações sérias e representativas. Essa é a visão sobre o futuro do capitalismo expressa pelo presidente, em artigo publicado nesta terça-feira (10) pelo jornal britânico Financial Times (FT), semanas antes da reunião do G-20 (grupo formando por grandes economias desenvolvidas e emergentes) que acontecerá em Londres.

“Acima de tudo, espero um mundo livre dos dogmas econômicos que invadiram o pensamento de muitos e ficaram presentes como verdades absolutas”, escreve. “Não estou preocupado com o nome que será dado à ordem econômica e social que virá depois da crise, desde que sua preocupação central seja os seres humanos.”

Para Lula, ninguém pode prever hoje o futuro do capitalismo, tema da série publicada esta semana pelo jornal britânico. “Como governante de uma grande economia descrita como ‘emergente’, o que eu posso dizer é o tipo de sociedade que eu espero que nasça da crise.”

Ele também defende o comércio internacional livre do protecionismo, que “mostra perigosos sinais de intensificação”. O presidente espera ainda organizações multilaterais reformadas, com programas de apoio para as economias pobres e emergentes, de forma a reduzir os desequilíbrios que afetam o mundo hoje. “Haverá um novo e democrático sistema de governança global.”

Lula vê ainda a necessidade de novas políticas energéticas, reforma dos sistemas de produção e do padrão de consumo, para assegurar a sobrevivência do planeta ameaçado pelo aquecimento global. Ele avalia que políticas anticíclicas devem ser adotadas não somente durante a crise. “Aplicadas antecipadamente, como foi feito no Brasil, elas podem garantir uma sociedade mais justa e democrática.”

Trajetória

O presidente inicia o artigo afirmando que, para ele, o capitalismo nunca foi um conceito abstrato, pois é parte concreta da rotina diária. Descrevendo sua trajetória do interior do Pernambuco para a liderança do movimento sindical em São Paulo, Lula diz que sua infância não foi diferente da de muitos garotos de famílias pobres: empregos informais, com pouca educação formal.

Ao chegar à presidência da República, após ter perdido quatro eleições, ele diz ter encontrado um País com sérios problemas estruturais e uma herança de desigualdades enraizadas. “Muitos de nossos governantes, mesmo aqueles que ordenaram reformas no passado, governaram para poucos”, diz. “Eles se preocuparam com um Brasil onde somente um terço da população importava.”

Lula também argumenta que, ao chegar ao governo, encontrou “profundos preconceitos” que poderiam levar o País à estagnação, como a avaliação de que não era possível crescer sem ameaçar a estabilidade econômica. Ou o governo aceitava as ordens da globalização ou o Brasil seria condenado a um isolamento fatal, diz. “Ao longo dos últimos seis anos, nós destruímos esses mitos”, afirma. “Nós crescemos e aproveitamos a estabilidade econômica.”

Segundo o presidente, o crescimento nacional tem sido acompanhando da inclusão de dezenas de milhões de brasileiros ao mercado consumidor, com distribuição de bem-estar para 40 milhões que viviam abaixo da linha da pobreza. A expansão do mercado interno, avalia, não ocorreu em detrimento das exportações, que triplicaram no período.

“Atraímos enormes volumes de investimento estrangeiro sem perda da soberania”, diz. “Tudo isso nos permitiu acumular US$ 207 bilhões em reservas externas e nos proteger dos piores efeitos de uma crise financeira que, nascida no centro do capitalismo, ameaça toda a estrutura da economia global.”