A Nestlé propôs ontem ao Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) a venda de marcas e ativos correspondentes a 10% do mercado de chocolates sob todas as formas (que inclui tabletes, barras, bombons, candy bar, caixas mistas e ovos de páscoa) para conseguir a aprovação da compra da Garoto.

O plano de “desinvestimento” (venda) apresentado pela Nestlé é um dos “fatos novos” oferecidos pela empresa para pedir ao Cade reapreciação da decisão tomada em plenário no início de fevereiro, que reprovou a compra da fábrica brasileira pela multinacional.

Além do plano, a Nestlé também apresentou números da pesquisa AC Nielsen de 2001, que revelam uma concentração de mercado menor que aquela considerada no julgamento do Cade.

Segundo os executivos da Nestlé, o Cade julgou o processo baseado em dados fornecidos pela Seae (Secretaria de Acompanhamento Econômico) do Ministério da Fazenda, considerando informações não auditadas das empresas, que apontavam uma concentração de 58% com a operação.

De acordo com os dados apresentados ontem, juntas, Nestlé e Garoto reduziriam sua participação de 47,8% (dados Nielsen) para 38,1% no mercado de chocolates, e de aproximadamente 80% para 60% no caso de coberturas.

Com a proposta da Nestlé, a participação das duas empresas ficaria, então, pouco superior ao mercado da principal concorrente, a Lacta (Kraft), que teria uma parcela de 33,2% (dados Nielsen).

O plano, segundo a Nestlé, permitiria a abertura de uma parcela de 9,7% a 12,2% no mercado de chocolates para que uma outra empresa pudesse atuar de forma competitiva. As marcas constantes da proposta e o valor de venda dos ativos foram apresentados ao Cade, mas em documentos sigilosos.

Novo concorrente

O consultor Luciano Coutinho, economista que apresentou parte do plano da Nestlé ao Cade, informou que os ativos e marcas que seriam colocados à venda representariam um negócio para um novo concorrente com faturamento entre R$ 170 milhões e R$ 200 milhões por ano, podendo chegar a R$ 280 milhões no prazo de cinco anos, com uma participação de até 15% no mercado de chocolates.

“O novo concorrente tem viabilidade econômico-financeira, o negócio é rentável e gera lucro líquido significativo”, disse Coutinho ao destacar que o faturamento estimado seria capaz de suportar inclusive os investimentos adicionais para o lançamento de novos produtos.

Na avaliação do economista, a configuração do mercado apresentada pela Nestlé seria uma “solução pró-concorrencial”, pois estaria retirando as barreiras à entrada de um novo concorrente forte como foi apontado pelo Cade em sua decisão de vetar a operação, inibindo o “exercício de poder de mercado”, que poderia afetar os consumidores com preços maiores, por exemplo.

Interessados

O diretor da Nestlé, Carlos Faccina, informou que a empresa já recebeu várias manifestações de interessados na compra da fatia proposta, mas não revelou o nome dos possíveis compradores.

O Cade não tem um prazo definido para decidir se irá acolher ou não o pedido de reconsideração do julgamento, mas Faccina considera que os documentos apresentados ontem são consistentes o suficiente para que o processo seja reexaminado pelo conselho.