O final do ano traz à tona a máxima de que mais dinheiro vem por aí com o 13.º salário e, apesar de o brasileiro já saber disso, nunca é demais relembrar os cuidados e dicas para aproveitar o recurso sem torná-lo fonte de mais e mais dívidas arroladas para o próximo ano. Além das compras de Natal e as viagens de férias, o 13.º deve servir também, seguindo as tendências dos últimos três anos, para quitar as pendências com lojas, bancos e financeiras. E, se houver sobras, o melhor é poupar para as despesas novas que acompanham o fim das comemorações do Réveillon.

 De acordo com o Departamento Intersindical de Estatísticas Sócio-Econômicas, o Dieese, o 13.º salário vai injetar na economia este ano cerca de R$ 46 bilhões em todo o País. Destes,

R$ 3 bilhões estarão concentrados no Paraná. Para o vice-presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Paraná (Ibef-PR), Luis Afonso Cerqueira, o aumento em relação ao ano passado – quando o 13.º injetou R$ 40 bilhões na economia do País e R$ 2,5 bi na do Paraná – é porque o desemprego parou de crescer e, com isso, aumentou a massa salarial, ou seja, a quantidade de pessoas com remuneração fixa. ?Não que isso signifique que as pessoas estão ganhando mais, mas indica que tem mais gente ganhando. É um número bastante significativo, de deixar o comércio ouriçado?, caracteriza.

Mas o comércio terá rivais na hora de reter a renda extra de final de ano, já que o 13.º vem agregando nova utilidade há algum tempo. E não se trata de aplicações ou investimentos, o que seria um fim um tanto proveitoso no longo prazo. Significa, no entanto, o uso do recurso para pagar dívidas acumuladas durante os meses anteriores. ?Com as taxas de juros muito altas, o endividamento começou a fugir do controle e muita gente que está com problemas no SPC – Sistema de Proteção ao Crédito – e no Serasa – empresa especializada em análises e informações para decisões de crédito e apoio a negócios – precisa regularizar a situação para fazer novas compras. Ou seja, o brasileiro começou a destinar parte do dinheiro para pagar dívidas; a outra parte continua indo para o consumo?, analisa Cerqueira.

Segundo o economista, tal tendência se deve a fatores como a cultura de deixar-se seduzir pelo crédito e o esquecimento de que o ano novo traz consigo despesas novas. ?As pessoas não se lembram que em janeiro vão pagar matrículas, material escolar e impostos como o IPTU e o IPVA. Além disso, no período de férias gastam além da conta porque, ao sair com o adiantamento, esquecem que depois não tem mais salário até o fim do mês.? Com isso, em janeiro e fevereiro a inadimplência aumenta: ?Vira uma cadeia. É no comércio que se concentra mais, mas isso reflete na indústria, que por sua vez atrasa pagamentos com os bancos e assim por diante?, enfatiza.

Para o vice-presidente do Ibef, já que as dívidas existem, deve-se tirar o máximo proveito do 13.º para quitá-las. ?Nessa época dá para discutir condições melhores, pagar as dívidas de juros mais altos, como as do cheque especial e do parcelamento do cartão de crédito?, aconselha. Depois disso, o consumo pode ser mais consciente e, se sobrar, a dica é que o dinheiro seja investido. ?Se a pessoa tem mais recursos, é o momento de comprar um CDB – Certificado de Depósito Bancário, um título de renda fixa emitido pelo bancos. A tendência das taxas de juros é cair e quem aplicar agora garantirá remuneração melhor depois.? Há bancos que conseguem somar nos repasses ao investidor rentabilidade de até 1,2% ao mês, contra os 0,7% da poupança. A diferença é que o CDB incide impostos sobre o investimento, como a CPMF e o Imposto de Renda.

Comércio espera por R$ 1,5 bilhão

O comércio é o setor com as melhores expectativas para a chegada do benefício. O Sistema Fecomércio estima que deve haver um crescimento considerável nas vendas em relação ao ano passado no Estado – algo em torno de 7,5%. Para o presidente Darci Piana, a expectativa se deve ao fato de que, além da tendência natural de as pessoas irem às compras no final do ano, haverá antecipação do pagamento do salário ao funcionalismo público estadual, chegando às contas bancárias na próxima sexta-feira (9). ?A expectativa é que grande parte desse recurso seja colocada nas compras. Outra parte com certeza será destinada ao pagamento de atrasos, o que também ajuda o comércio a se reforçar, já que quem paga uma conta é porque pode fazer outra?, acredita.

A antecipação reanima o comércio também porque eleva as últimas projeções. No início do ano, de acordo com Piana, estimava-se que as vendas crescessem pelo menos 10% em relação ao período de festas de 2004. ?Mas com as dificuldades no agronegócio, a seca e depois a aftosa, era menos gente ganhando e, consequentemente, menos gente comprando?, justifica o presidente para a queda nas expectativas abaixo dos 7% antes da notícia da antecipação.

Quanto à inadimplência, que se concentra principalmente entre os meses de janeiro, fevereiro e até março, o presidente da Fecomércio avalia como fator que faz o comércio perder, mas ao mesmo tempo inerente ao período. ?Em função do excesso de gastos, muita gente não reserva recursos para o cumprimento das primeiras prestações. Isso acaba causando o atraso, que sentimos até no terceiro mês do ano. Além disso, as pessoas fazem empréstimos e encontram juros acima do padrão normal?, acredita. ?E o comércio não tem alternativas como qualquer pessoa física. Acaba perdendo capital, mas faz esforços para evitar protestos com os bancos.?

Recomendação é pechinchar preços

Segundo o professor do departamento de Economia da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e conselheiro do Conselho Regional de Economia do Paraná (Corecon-PR), Antônio Denardi, planejar o uso do 13.º é primordial. No caso de ir às compras, aproveitar o poder de barganha deve ser também uma prioridade, além de meio eficaz para evitar as armadilhas do comércio. ?O problema é que as pessoas, atraídas pela propaganda, acabam superando o limite de gastos?, ressalva.

Por isso, a primeira dica é pagar primeiro e usar depois. ?Hoje as pessoas fazem até mesmo as compras semanais com cheque para 40 dias, o que é um atentado ao salário?, opina. Além dos cheques pré-datados, os parcelamentos também exigem atenção. ?As lojas estão vendendo juros disfarçados de mercadorias. Quando anunciam dez prestações sem acréscimo, algo está errado, ainda mais quando o estabelecimento nem divulga o preço à vista, mas só o valor da prestação.?

O que é garantia para a loja -que muitas vezes recebe adiantado o valor integral da mercadoria parcelada de um terceiro, como operadoras de cartão de crédito, por exemplo – pode ser arapuca para o consumidor. ?Não adianta calcular a taxa de juros, mas comparar o valor a prazo com o menor preço à vista no mercado. É sempre melhor poupar e comprar à vista, porque quem tem a posse do dinheiro tem o poder de barganha. Ao entrar para o mundo da prestação, a pessoa se torna vítima do crediário e tende a contrair sempre novas dívidas?, alerta. E para que isso tenha eficiência, o brasileiro deve perder o medo da pechincha. ?Desde o supermercado até nas lojas do crediário dá para conseguir descontos?, garante o economista.

Somado a isso, deve vir o planejamento, capaz de permitir um fim de ano com festas, compras e até viagens sem comprometer o orçamento do ano que vem. ?É preciso ter conhecimento da estrutura dos gastos e sempre evitar uso de recursos de terceiros, como os bancos. Se há planejamento, dá para verificar onde estão as sobras para fazer um investimento?, indica.