Em mais um episódio violento registrado nas obras do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), um ônibus da empresa Viação Real Brasil que levava trabalhadores ao local foi incendiado na manhã desta quinta-feira, 6. Segundo a polícia, dois homens armados em uma moto abordaram o veículo por volta das 6h10 na via de acesso ao complexo e obrigaram os 13 operários e o motorista a descerem. Em seguida, atearam fogo no ônibus. Antes de fugir, a dupla ainda disparou para o alto. Ninguém ficou ferido.

A ação se soma a uma série de problemas verificados no complexo, que está sendo erguido em Itaboraí, na região metropolitana do Rio, e cujos operários estão em greve. Projetado em 2006 por US$ 6,5 bilhões, o Comperj deve ter sua primeira unidade inaugurada em agosto de 2016, cinco anos após o programado, por pelo menos US$ 13,5 bilhões. O valor refere-se a apenas uma refinaria (165 mil barris/dia) das duas previstas. Em oito anos, o projeto foi alterado várias vezes, o preço inflado e houve atraso na chegada de equipamentos.

Em greve desde fevereiro, os trabalhadores das obras do Comperj reivindicam reajuste salarial de 11,5% e elevação do vale alimentação para R$ 450. As empresas oferecem aumento de 7%. Desde o começo das manifestações, o Sindicato dos Trabalhadores do Plano da Construção, Montagem e Manutenção de São Gonçalo, Itaboraí e Região (Sinticom), que representa os 29,2 mil trabalhadores do Comperj, já teve uma caminhonete queimada em 5 de fevereiro, ainda nos primeiros protestos. No dia seguinte, dois funcionários das obras foram baleados, e outro foi ameaçado.

Inicialmente, o sindicato não apoiou a greve e foi acusado de manter postura patronal. Após os incidentes, o Sinticom aderiu à paralisação, deflagrada oficialmente em 11 de fevereiro. A presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, declarou que a estatal acompanhava a situação. “Estamos dialogando sempre. São muitas empresas. Elas têm lá seus momentos para discutir salários e ganhos para os trabalhadores. Vez por outra, temos que conversar com eles porque é preciso caminhar”, disse, em coletiva no dia 18 de fevereiro.

O ônibus incendiado nesta quinta foi o primeiro registro violento desde então. A polícia investiga se houve tentativa de intimidar os funcionários que não aderiram à greve ou pressionar as empresas para que atendam às reivindicações. O Sinticom apontou “pessoas não ligadas à greve” como responsáveis pelo ato e negou qualquer envolvimento de seus membros na ação. A entidade ainda comunicou que está buscando um acordo com as empresas. O Sindicato das Empresas de Engenharia e Montagem e Manutenção Industrial do Estado do Rio de Janeiro (Sindemon) considera a paralisação irregular.

Uma liminar, concedida em 26 de fevereiro pela desembargadora Rosana Salim Villela Travesedo, do Tribunal Regional do Trabalho (TRT), determina o fim imediato da greve. Em caso de descumprimento, a multa diária é de R$ 10 mil. Até o momento, o Sinticom assegura que a greve permanece pelo menos até a próxima segunda-feira, 10, data da próxima assembleia.