O conjunto de países da América Latina e do Caribe vai registrar, em 2002, a mais baixa taxa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) entre as oito principais regiões do mundo. O relatório anual do departamento econômico da Organização das Nações Unidas (ONU) indica que a expansão será de 0,3%, repetindo o pífio resultado do ano passado. O desempenho será pior do que o da África (2,7%), continente muito mais pobre, e o do Sudeste da Ásia (4,5%), onde estão vários competidores dos países latinos no comércio global. A economia mundial deverá crescer 1,8%.

Rio

(AG) – Os números do primeiro trimestre já deram o tom: o PIB do Brasil recuou 0,73%; o da Venezuela, 4,2%; o do México caiu 0,3%; e o da Argentina, pelo menos 10%. Mesmo se a Argentina – que passa por uma delicada crise financeira – for retirada dos cálculos, a América Latina permanece na lanterninha: taxa média de 2,1% de crescimento.

– Mais um século não começa bem para nós – sintetiza Renato Baumann, diretor do escritório brasileiro da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal).

Analistas da ONU e especialistas atribuem a baixa capacidade de crescimento à frágil situação dos fundamentos macroeconômicos (endividamento, correlação entre receita e despesas) e à vulnerabilidade externa da região. Há uma dependência de capital estrangeiro para fechar as contas e, ao mesmo tempo, uma base exportadora muito reduzida, se comparada à média de outros emergentes.

Países

Dessa avaliação geral da região, as grandes economias que escapam são apenas Chile e México. O Brasil, segundo os analistas, é a síntese dos problemas latinos.

– A América Latina vive de ciclos muito curtos, afetada sempre fortemente pelos eventos internacionais, num eterno sobe-desce. Está claro que o modelo econômico que foi implantado aqui não deu certo e é preciso agir rápido para mudar essa situação e criar as bases para o crescimento sustentado – afirma Fernando Ferreira Pinto, sócio da consultoria Global Invest.

No ano passado, esses entraves ficaram evidentes devido à desaceleração brutal da economia mundial, capitaneada pela recessão dos EUA. O capital financeiro fugiu da região ou cobrou muito caro para financiar a dívida dos países, atualmente considerados os de maior risco conjunto no mercado emergente. Além disso, o fluxo comercial despencou, tornando ainda mais difícil a captação de dólares para fazer frente aos compromissos e investir na produção.

Segundo Ferreira, a desconfiança continua. Agora, que a perspectiva é de retomada mais intensa da economia americana, o capital começa a se interessar novamente pelos emergentes. Mas o consultor aponta: a América Latina é a última da fila. Ásia, Leste da Europa e África do Sul vão liderar as captações e a valorização de títulos dos países em desenvolvimento.

Apenas o México – agora uma economia que desacelera ou acelera no compasso dos EUA devido à Alca – continuará sendo bem avaliado.

Outro fator que permanece é o desequilíbrio fiscal e o endividamento elevado. Com esse perfil, os países não podem utilizar do expediente de elevar os gastos públicos e reduzir juros para estimular o crescimento, como fizeram o Canadá e os EUA.

Entraves

Renato Baumann, porém, aponta o que é o entrave número um da região: por ser intensiva em recursos naturais, não desenvolveu uma base de exportação de produtos de alto valor agregado. Com isso, mesmo com o esforço de aumento do volume vendido ao exterior – algo que ocorre desde os anos 80 – os países latinos não conseguem reduzir sua dependência externa.

– Algo saiu errado, você não pode depender de commodities para exportar, porque se os preços caem, como alguns caíram até 60%, não há saída – diz o diretor da Cepal.

A Cepal defende o que chama de expansão dos benefícios da exportação, que significa acabar com as ilhas de excelência e incentivar a dedicação da maior parte das empresas às vendas externas. Ferreira, da Global Invest, destaca ainda que o estímulo ao turismo, que é gerador de muitos empregos, seja uma política prioritária.

Também limitam a expansão latina as crises e tensões políticas, especialmente na Venezuela e na Colômbia, onde o capital produtivo se recusa a fincar raízes com medo de mudanças nas regras do jogo econômico. O Chile é o mais bem posicionado dos países latinos importantes: provavelmente crescerá 3%, sustentando a mesma taxa média de expansão pelo terceiro ano.