São Paulo

– O Comitê de Política Monetária (Copom) começa sua reunião sob fogo cerrado. Grande parte dos analistas acredita que o Banco Central (BC) deve anunciar amanhã a manutenção da taxa básica de juros, a Selic, nos atuais 26,5% ao ano. Mas a possível decisão de manter o arrocho monetário está sendo bombardeada por vários setores da sociedade. Os juros altos são alvo do “fogo amigo” de integrantes do governo, como o vice-presidente José Alencar, o senador Aloizio Mercadante e o ministro da Integração Regional, Ciro Gomes, e até de improváveis críticos do mercado financeiro.

A segunda prévia do Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M) de maio, divulgada ontem, mostra uma deflação de 0,28% e deve dificultar ainda mais a decisão do Copom. “Essa é a reunião mais difícil de todos os tempos”, diz uma fonte da equipe econômica. A pressão da sociedade para a redução das taxas de juros, expressa na mídia em seu noticiário, foi definida como “brutal” por um integrante do governo.

Desde a primeira reunião do Copom do governo Luiz Inácio Lula da Silva, em janeiro, uma decisão econômica não suscitava tanta celeuma. O time dos conservadores é liderado pelo ministro da Fazenda, Antônio Palocci, e o presidente do BC, Henrique Meirelles, que vêm reiterando a necessidade de uma queda significativa da inflação e alertando para o perigo da inércia para a redução dos preços. Para os partidários do “esperar para ver”, o obstáculo para o corte da Selic é o comportamento dos preços ao consumidor.

“A inflação no atacado está caindo de forma significativa, mas os preços ao consumidor ainda não caíram o suficiente para garantir o cumprimento das metas de inflação (de 8,5%)”, diz Roberto Padovani, sócio da Tendências Consultoria Integrada. Para Octavio de Barros, economista-chefe do BBV Banco o BC deve resistir às pressões políticas e não deve tomar uma decisão influenciado por apostas.

Para o ex-presidente do BC Carlos Langoni, o ideal seria o governo aguardar até o fim do mês para decidir. “Só é possível reduzir juros com segurança depois de uma reversão de expectativa inflacionária, que hoje continua elevada, entre 11% e 12%”, diz.

A torcida pelo corte imediato nos juros é ainda mais barulhenta. “É hora de reduzir os juros”, afirma o coordenador-adjunto do IPC-Fipe, Juarez Rizzieri. Para ele, a queda da inflação até o momento já permitiria cortar a Selic de 26,5% ao ano para 25,5% quarta-feira e até três pontos percentuais em junho. “Está havendo um excesso de cautela do BC”, diz Rizzieri. “Há uma forte desaceleração da inflação e não há nenhum sinal que mostre mudança na tendência.”

Para Clarice Messer, diretora do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos da Fiesp, a taxa de inflação vem caindo nos últimos meses, mas não foi acompanhada pelos juros. “Isso significa que o arrocho monetário vem crescendo”, diz Clarice.