“O Fundo Monetário Internacional ajudou a Argentina e o Brasil a vencer as dificuldades e começar a crescer. Nós somos e temos de nos ver como membros do Fundo.” A frase, do ministro da Fazenda, Antônio Palocci, abre entrevista dada por ele ao correspondente do jornal argentino La Nación no Brasil e, para alguns, pode soar como crítica aos ataques constantes feitos pelo presidente argentino, Néstor Kirchner, ao FMI.

É bom lembrar que Kirchner entrou em moratória por 48 horas com o Fundo no ano passado e, há poucas semanas, ameaçou com um novo calote caso o FMI mantivesse exigências consideradas pelo governo argentino “impossíveis” de ser cumpridas.

O próprio La Nación afirma que Palocci “não está disposto a alterar o discurso para conquistar a simpatia do governo argentino”, que – ao contrário do governo brasileiro – vê seu nível de aprovação subindo a cada pesquisa que é divulgada, justamente por conta a “verborragia” de Kirchner contra organizações como o FMI.

O jornal define o ministro como “o homem que maneja a economia do Brasil com mãos de ferro” e faz questão de mostrar que Palocci deixou claras durante a entrevista “as diferenças que existem entre o seu discurso e do governo Kirchner”.

Discurso esse que chegou a provocar polêmica no ano passado, quando a imprensa argentina noticiou a existência de “rusgas” entre os presidentes Kirchner e Lula. O argentino teria criticado a relação de “obediência” do governo Lula em relação ao FMI, apesar de nunca ter confirmado oficialmente essa opinião.

“Não sou inimigo da Argentina. Mas as dívidas dos países têm dinâmicas diferentes. Para o Brasil, cumprir contratos e pagar a dívida é o único caminho possível. As heterodoxias econômicas já nos conduziram para muitos maus caminhos”, disse Palocci.

A Argentina está em moratória com credores privados desde dezembro de 2001 e, até agora, não conseguiu chegar a um acordo para reestruturar essa dívida. A polêmica é que os argentinos se propõem a pagar apenas 25% do que devem e os investidores se recusam a aceitar essa oferta.

Poder

O La Nación informa que Palocci é hoje o “número dois” na hierarquia do poder no Brasil. “Alguns, com ironia, dizem que é o número um já que, em 15 meses de governo, e nem diante da tormenta de críticas ao pobre desempenho da economia, o presidente Lula deixou de apoiar a confiança absoluta no seu ?ministro-guru.”

Palocci é definido pelo jornal como o homem que migrou da personalidade de “médico trotskista a referência ortodoxa”. É um homem que “diz ter se acostumado a ser acusado de conservador”, apesar de ter sido um ativo militante do trotskismo à frente da corrente conhecida como Liberdade e Luta durante a juventude.

Plano B

Palocci também voltou a afirmar que no governo não existe um “plano B” para a economia e que o governo Lula irá resistir às tentações de mudar o rumo e adotar políticas menos duras como pedem setores como o industrial, sindical, além das pressões existentes dentro do próprio PT.

“O presidente Lula sabe que o processo é custoso e angustiante, mas é o único que pode levar o País para um crescimento sólido. Não existe mágica: o eixo do nosso governo é o ajuste fiscal”, disse Palocci.