Apesar de admitir preocupação com a situação fiscal do Brasil, a diretora para ratings soberanos para América Latina da Standard & Poor’s, Lisa Schineller, garantiu, em entrevista exclusiva ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, que a piora fiscal não significa que a nota soberana de crédito do Brasil está prestes a cair um degrau na categoria de grau de investimento, ficando mais perto da categoria especulativa.

“O outlook negativo não significa que uma mudança no rating é iminente. Isso pode ocorrer em um a dois anos”, afirmou. Além disso, ela afirmou que é exagero dizer que o Brasil – entre os emergentes dos Brics, do qual fazem parte ainda Rússia, China, Índia e África do Sul – poderia ser o primeiro a perder o status de “grau de investimento”. “A Índia tem nota BBB- com perspectiva negativa e está mais perto que o Brasil”, disse.

Hoje, o Brasil tem a nota em moeda estrangeira de BBB, com perspectiva negativa pela S&P. Das três principais agências de classificação de risco, a S&P é a única a colocar perspectiva negativa para o País. Segundo Lisa, os temores sobre perda do grau de investimento são exagerados e se devem a expectativas muito altas em relação ao País no momento de crescimento mais acelerado.

“O Brasil estava claramente superaquecido quando chegou a crescer 7,5% em 2010, quando o potencial era bem mais baixo, ao redor de 3,5%”, disse. Mas julga exagero o pessimismo de agora. “Temos de considerar que o Brasil teve uma melhora importante na última década e está sendo subestimado.”

Lisa ressaltou que há riscos para baixo diante da deterioração fiscal e crescimento fraco, especialmente com a proximidade das eleições, no ano que vem, e que o governo tem desafios para firmar a credibilidade de suas políticas. “Esse cenário pode levar a um rating mais baixo, mas repito que não significa que isso seja iminente. Claro que é sempre possível uma mudança a qualquer momento, mas nós não estamos com o rating de crédito do Brasil sob análise”, reforçou.

Deterioração

Apesar dessa análise, a diretora para ratings soberanos para América Latina da Standard & Poor’s disse que os números recentes mostram deterioração no lado fiscal e que é necessário que o governo ponha em prática mudanças o quanto antes. “Os números da dívida estão indo na direção errada em termos de tendência”, avaliou.

Segundo a diretora, o governo tem ressaltado “verbalmente” que vai melhorar a situação fiscal, como, por exemplo, desacelerando o ritmo de financiamentos por bancos estatais como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). “Mas o que queremos ver agora é execução, sinais concretos de mudança da política fiscal”, afirmou.

Lisa lembrou que, independentemente das promessas que o governo faz, de que irá cumprir sua meta de superávit primário, tão importante quanto cumpri-la é como ela é atingida. “E nós não esperamos um resultado primário forte este ano ou no ano que vem”, admitiu.

Por outro lado, embora a inflação siga alta e mais perto do teto da banda, Lisa ressalta que há hoje “mais flexibilidade monetária do que uma década atrás” e reconhece que o ambiente externo está “mais difícil atualmente”. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.