O Paraná perdeu sua identidade empresarial regional e virou território de gerentes de multinacionais. Este é apenas um dos desafios que as lideranças políticas e empresariais do Estado terão que enfrentar nos próximos anos, na avaliação do economista Gilmar Mendes Lourenço. Mestre em Gestão de Negócios pela UFSC, professor da FAE Business School e pesquisador do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), ele está lançando seu segundo livro, “A economia paranaense em tempos de globalização”, com apoio do Sindicato dos Economistas do Paraná (Sindecon/PR).

Segundo os analistas, o mundo passou por quatro grandes transformações nos últimos 20 anos: globalização, reestruturação industrial, financeirização da riqueza e reorganização do mundo capitalista em blocos. “Acoplado à decisão de implantar a cartilha neo-liberal, o Brasil se encaixou nesse processo: abriu a economia, integrou um bloco comercial (Mercosul) que passa por um momento difícil, privatizou empresas públicas e tentou a estabilidade monetária com o Plano Real”, aponta Gilmar. “A economia do Paraná aproveitou o momento favorável vivido pelo País em 95 e 96. Quando a inflação despencou, vários estados perceberam a chance de voltar a implementar programas de industrialização”.

Na análise do economista, a estratégia agressiva de industrialização adotada pelo Paraná vai provocar a diversificação da estrutura produtiva do Estado quando a economia brasileira retomar o crescimento. Esse processo está fundamentado em quatro eixos de crescimento, conforme Gilmar: automotivo (montadoras e fornecedores), agronegócio (com papel estratégico exercido pelas cooperativas), complexo madeireiro e papeleiro (aproveitando o estoque de matéria-prima florestal) e a construção civil ligada à necessidade de aprimoramento da infra-estrutura.

Historicamente, a economia paranaense sempre esteve atrelada a ciclos: tropeirismo, erva-mate, café, trigo, soja. “Quando houver a retomada do crescimento, o Estado não ficará dependente exclusivamente de um grupo de atividades e nem será considerado uma economia complementar à paulista”, pondera Gilmar. Apesar das mudanças sócio-econômicas ocorridas nos últimos anos, ele salienta que “o Paraná não é uma ilha de prosperidade, pois está recheado de problemas que precisam ser enfrentados pelas lideranças políticas e empresariais”.

Desafios

Em seu livro, o economista cita cinco desafios. O primeiro é a forte concentração industrial na Região Metropolitana: “Quase 80% da renda industrial do Estado está nos 200 km do eixo Paranaguá-Curitiba-Ponta Grossa. Isso é preocupante quando se leva em conta a necessidade de interiorizar o desenvolvimento”. O segundo objetivo é perseguir a maior paranização do pólo automotivo. “Hoje 3% das compras das montadoras daqui são feitas no Estado. Caso as empresas locais não aproveitem esse mercado, será ocupado por paulistas, mineiros, franceses, alemães…”

Outro desafio que precisa ser revertido é a absorção de empresas regionais pelas multinacionais, que tira o poder de decisão de dentro do Estado. “Se não resgatar a identidade empresarial regional, fica mais difícil para o governo do Estado resolver estratégias de crescimento”, ressalta Gilmar. Além disso, há o êxodo rural. Dados do IBGE mostram que o número de desempregados no Paraná subiu de 265 mil, em 95, para 400 mil, em 2001. A taxa de desemprego, que representava 5,7% da População Economicamente Ativa, passou para 7,7%. “A população expulsa do campo por causa da mecanização agrícola não encontrou emprego na Renault nem na Audi/Volkswagen”, ilustra o economista.

Como se não bastasse, há ainda o desequilíbrio das contas públicas. A dívida do Paraná, que era de R$ 1,2 bilhão em dezembro de 94, fechou o ano passado acima de R$ 16 bilhões. Entre os fatores que contribuíram para esse incremento substancial, Gilmar enumera: no campo federal, a política de juros altos e as limitações da Lei Kandir; no Estado, o empréstimo feito para sanear o Banestado e a gestão financeira deficiente dos recursos públicos. “O Paraná não fugiu à regra nacional de gastar mais do que arrecadava, deteriorando sua capacidade de investimento”, analisa o economista.

Perspectivas

Diante desse quadro, a pergunta que se faz é: quando o Paraná vai colher os frutos dos investimentos? “O Paraná só muda o perfil se a economia brasileira crescer”, responde Gilmar. “Sem crescimento, não tem emprego e renda e não ocorre a maturação dos investimentos nem na indústria automotiva, que vice uma crise mundial, nem no agronegócio”. O tão propalado crescimento, na opinião do economista, só ocorrerá quando os fatores de competitividade estiverem alinhados: taxa de câmbio, juros reais, carga tributária, burocracia e infra-estrutura. “As restrições que o Brasil tem em todos esses pontos não se contornam com as reformas que estão tentando fazer”, comenta.

Serviço – O livro está à venda no Sindecon/PR por R$ 20. Informações: (41) 253-6133/35