A economia brasileira se recuperou menos do que o imaginado no terceiro trimestre, segundo os números do PIB (Produto Interno Bruto, conjunto de riquezas produzidas pelo país), divulgados ontem IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Depois de uma retração de 1,2% no segundo trimestre, o PIB registrou pequena expansão de 0,4% no terceiro trimestre ante o segundo. O mercado esperava uma alta maior. O Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas, órgão do próprio governo), por exemplo, apostava em crescimento de 1,5%.

Além disso, se observado o comportamento nos nove primeiros meses deste ano a economia ainda apresenta resultados ruins e está longe do “espetáculo do crescimento” anunciado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

De janeiro a setembro, a economia caiu 0,3%. Até junho, o PIB havia crescido 0,4%. Na comparação com igual período do ano passado, o PIB do terceiro trimestre caiu 1,5%. Nos últimos 12 meses, houve alta de 0,7%.

O governo trabalha com três projeções de crescimento para este ano. O Ministério da Fazenda prevê uma alta de apenas 0,4% enquanto o Ministério do Planejamento é mais otimista e projeta que o PIB cresça 0,8% em 2003. Já o Banco Central estima o crescimento em 0,6%. O mercado, por sua vez, prevê alta de 0,68%.

Exportações

As exportações salvaram a economia brasileira neste ano. O setor agrícola, voltado cada vez mais para o mercado externo, registrou crescimento maior que a indústria e os serviços. As exportações apresentaram alta de 15,8% no ano, puxadas pela agricultura.

Até setembro, o avanço do setor agrícola foi de 5,1%, enquanto a indústria teve retração de 0,7% e o setor de serviços, de 0,3%. Dentro dos subsetores da indústria a construção civil foi a única que apresentou queda, de 7,7%, e influenciou o mau desempenho de todo o setor

Os demais segmentos -serviços industriais, extrativo-mineral e indústria de transformação – registraram alta de 2,5%, 2,1% e 0,7%, respectivamente. Já no setor de serviços, a maior queda foi registrada pelo comércio (-3,4%), seguida pelos transportes (-1,6%).

“A síntese é que há um excelente comportamento da agropecuária no ano. E a indústria começou a ter sinais de crescimento. Os serviços acompanharam o movimento da indústria e agropecuária. Está tendo uma melhora da indústria, principalmente da indústria extrativa-mineral e de transformação. O que não permitiu o grupo da indústria ter um melhor desempenho foi a constução civil, que teve uma queda muito forte”, disse o gerente da coordenação de Contas Nacionais do IBGE, Roberto Olinto.

Percentual é “não-anualizado”

Se o Brasil adotasse o critério de apresentação do crescimento do PIB trimestral utilizado nos Estados Unidos, o número brasileiro para o terceiro trimestre seria 1,61%, e não 0,4%. Aquele primeiro número se compararia com o vigoroso crescimento de 8,2% no terceiro trimestre da economia americana. Na verdade, tanto o crescimento de 1,61% quanto o 8,2% são dados anualizados. O Brasil, ao divulgar o número de 0,4%, está usando um dado não-anualizado. A anualização significa que a economia brasileira cresceria 1,61% ao fim de um ano, caso o crescimento de 0,4% no terceiro trimestre, em relação aos três meses anteriores, se repetisse durante mais três trimestres.

Se os Estados Unidos adotassem o critério de apresentação do PIB trimestral utilizado no Brasil, o dado não-anualizado do crescimento do PIB no terceiro trimestre seria 1,99%. Se este ritmo de crescimento perdurasse por mais três trimestres, ao fim de um ano a economia americana teria crescido 8,2%.

Todos os dados acima, tanto os relacionados ao Brasil como aos Estados Unidos, referem-se à chamada série “encadeada” e “dessazonalizada” do PIB. O primeiro termo quer dizer que o crescimento do PIB trimestral é sempre dado como uma comparação entre um determinado trimestre e os três meses imediatamente anteriores.

E a expressão “dessazonalizado” significa que um tratamento estatístico é dado à série de tal forma que variações no PIB ao longo do ano, que sempre se repetem, sejam eliminadas. Por exemplo, a produção no último trimestre é maior no Brasil (o que se repete em vários países), por causa das festas de fim de ano e do décimo terceiro salário. Assim, a produção do último trimestre tende a ser sempre superior à do terceiro, mesmo que a tendência da economia seja de retração. Se isso ocorrer, em uma série dessazonalizada, o último trimestre mostrará queda em relação ao terceiro, já que aquele crescimento típico de fim de ano será eliminado, usando-se técnicas estatísticas.

Consumo continua em queda

O consumo das famílias continua em queda apesar da ligeira recuperação do PIB (Produto Interno Bruto) no terceiro trimestre, segundo dados divulgados ontem pelo IBGE.

Afetado pela queda da renda, elevados níveis de desemprego e dos juros ainda altos, no ano, o consumo acumulou um retração de 4,2%. No terceiro trimestre deste ano em relação aos três meses imediatamente anterior, o consumo das famílias caiu 0,2%.

Outro item revelador da fraca atividade interna corresponde à situação dos investimentos feitos pelas empresas, visto pelo dado de formação bruta de capital fixo.

Os investimentos subiram 2,8% do segundo para o terceiro trimestre. No entanto, retraíram-se na comparação com o terceiro trimestre de 2002. No período, a queda foi de 9% e no acumulado até setembro, de 7,2%.

Promessas difíceis

A economia brasileira vai ter que crescer 3,9% no quarto trimestre em relação ao mesmo período do ano passado para atingir a previsão feita pelo Ministério do Planejamento, de um crescimento de 0,8% do PIB deste ano.

Para chegar ao crescimento mais modesto projetado pelo Ministério da Fazenda (0,4%), o PIB do último trimestre do ano precisa crescer 2,3% na comparação com igual período do ano anterior.

Para manter a taxa dos últimos 12 meses encerrados em setembro, de 0,7%, é preciso que a economia se expanda em 3,5% no quarto trimestre no mesmo comparativo.

Mesmo que a atividade econômica cresça 0,7% nos últimos três meses do ano, o PIB fecharia ao fim do ano estagnado.

No terceiro trimestre de 2003, o PIB registrou queda de 1,5% na comparação com o mesmo trimestre de 2002.