O Brasil concentra hoje cerca de 14% das florestas do mundo (470 milhões de hectares), sendo 15% dessas matas nativas. Com isso, o País fica atrás apenas da Rússia, que hoje detém a maior fatia de florestas, sendo 23% nativas. Mas quando o assunto é floresta plantada, o Brasil cai para o sexto lugar, com 5,5 milhões de hectares o primeiro lugar é da China, com 45 milhões de hectares. No entanto, o consumo interno é de 142 mil hectares/ano, o que mostra que existe a necessidade de plantar mais de 54 mil hectares.

“A partir de 2016 teremos um déficit de madeira, se não for incentivado o plantio”, alerta o engenheiro agrônomo do Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) e coordenador do Projeto Madeira, Fernando Martins. Segundo ele, os setores que sentirão primeiro a redução da matéria-prima são o de papel e celulose que consomem oito milhões de metros cúbicos/ano – e o de madeira cerrada cujo consumo é de quatro milhões de metros cúbicos/ano. Martins comenta que os setores de papel e celulose fazem reposição de florestas, mas que, assim como o setor de madeira serrada, os de compensados laminados e energia (que juntos consomem mais de vinte milhões de metros cúbicos/ano) ainda estão muito deficientes no plantio de reposição.

Para o biólogo e pesquisador da Embrapa Florestas, unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, Edson Thadeu Iede, parte da culpa pelo risco de o Brasil viver na iminência de um apagão florestal é dos próprios especialistas das áreas de pesquisa e extensão, que não souberam orientar os produtores. No entanto, ele acredita que ainda é possível reverter esse quadro e aposta que, em breve, o País irá despertar para as grandes vantagens da silvicultura. Hoje o setor gera 8,5 milhões de empregos, representa 3,5% do Produto Interno Bruto (PIB) US$ 37,3 bilhões – e deve investir US$ 18 bilhões até 2014.

As distorções na legislação também contribuem para o atual cenário, afirma o vice-presidente da Associação Brasileira de Produtores de Florestas Plantadas (Abraf), Roberto Gava. “O setor de plantio de florestas não pode estar atrelado ao Ministério do Meio Ambiente e, aqui no Paraná, ao IAP (Instituto Ambiental do Paraná) e à Sema (Secretaria do Meio Ambiente). Esses órgãos cuidam de reflorestamento e a silvicultura é atrelada à agricultura”, pondera.

Programa integra produtores

Desde o ano passado, o preço da madeira paga ao produtor aumentou em 30%, segundo o coordenador de Fomento da Klabin empresa líder na produção de papel e celulose que mantém uma das sedes em Telêmaco – Borba, centro leste do Estado -, Paulo Vicente Ângelo. Cerca de 12 mil produtores estão integrados ao programa de fomento da empresa, que, entre as modalidades, oferece desde o fornecimento de mudas, garantia de compra até empréstimos de recursos.

Os produtores não mantêm vínculo de exclusividade com a Klabin. Segundo Ângelo, a meta da empresa era trabalhar com propriedades que estivessem a 100 quilômetros de distância da fábrica. No entanto, hoje a Klabin alcança produtores distantes até 130 quilômetros, e suprindo apenas 8% de sua necessidade. Diante disso, a empresa deve mudar as cláusulas do fomento.

“Não iremos exigir a exclusividade para não interferir no mercado, mas talvez a compra antecipada e garantia do preço mínimo”, ressalta. Ele acrescenta que, diante da redução da matéria-prima, o pólo madeireiro de Arapongas está começando a buscar produto na região de Telêmaco Borba, o que já começa a impactar o mercado. Só o distrito industrial de Telêmaco Borba consome hoje 1,5 milhão de toneladas/ano de tora. Além de atender à demanda da empresa para a produção de 1,1 milhão de toneladas/ano de papel, a Klabin fornece madeira para mais de 30 empresas.

Cultivo prevê vantagens, ao meio ambiente

De acordo com o pesquisador Edson Thadeu Iede, da Embrapa Florestas, o cultivo de florestas apresenta uma série de vantagens ambientais, como a recuperação de pastagens, proteção de áreas nativas, influência positiva nas mudanças climáticas e na biodiversidade. Além disso, a madeira pode ser fornecedor para biocombustíveis (sistema pesquisado pela Embrapa), reduz o uso de defensivos agrícolas no controle biológico e mantém a mão-de-obra, por não ser um sistema sazonal.

Já para o produtor rural, destaca Fernando Martins, da Emater, as florestas plantadas podem ser excelentes fontes de renda, inclusive em pequenas propriedades. Em pastagens no sistema agrossilvipastoril (que combina árvores, cultura agrícola e animais numa mesma área), a produção animal pode aumentar em 25%. Com o eucalipto, por exemplo, a taxa de retorno é estimada em R$ 2,6 mil por hectare/ano. “A cultura exige um fluxo negativo nos seis primeiros anos, mas é altamente compensatória no final”, ressalta Martins.

Na região de Umuarama, noroeste do Estado, foi fundada uma cooperativa que está investindo no plantio de eucalipto e, enquanto não obtém o retorno no investimento, está se beneficiando da venda do seqüestro de carbono. Até 2018 todas as propriedades rurais brasileiras terão de se adaptar à legislação ambiental, que prevê parte das áreas como reserva legal. No sul e sudeste, a área mínima será de 20% da propriedade; no cerrado, 30%, e na Amazônia, 80%. De acordo com Fernando Martins, o produtor não terá como fugir dessa exigência, no entanto, poderá se beneficiar com o plantio de espécies consideradas exóticas, como o pinus e o eucalipto.