O papel de mocinho na novela inflação, desempenhado este ano pelos preços administrados, está com os dias contados, na avaliação de economistas do mercado financeiro. A projeção dos profissionais é a de que esses preços reassumam um personagem com características mais próximas às de vilão, como sempre ocorreu nos anos anteriores.

Esta possibilidade de interrupção dos benefícios dos preços determinados ou monitorados pelo governo – como água, luz, telefone e gasolina – já havia começado a ser apontada por alguns economistas nos últimos meses, mas vem ganhando mais força recentemente. Na semana passada, o diretor de Estudos Especiais do Banco Central, Mário Mesquita, também teria comentado durante reunião trimestral com analistas, em São Paulo. "Mesquita salientou que a inflação deste ano foi ‘anormal’ porque os preços administrados seguiram muito baixos, enquanto os livres rodaram na casa de 4,00% ou 4,50%", relatou um dos participantes da reunião. "Mesquita indicou que, se não fossem os administrados, a inflação estaria muito próxima da meta", disse outra fonte que participou do evento.

Para se ter uma idéia da diferença das expectativas de analistas financeiros para o comportamento desses preços em 2007 e 2008, basta verificar a mediana do relatório de mercado (Focus), divulgado na segunda-feira (27) pelo Banco Central. Se para este ano o porcentual esperado é de 2,50%, para o próximo está em 3 50%. A diferença de um ponto porcentual deixa de ser insignificante quando se fala de uma inflação esperada de 3,86% para 2007 e de 4,00% no ano que vem.

Para 2008, ainda que se conte de forma consensual com uma taxa abaixo do centro da meta (4,50%), os preços acompanhados pelo governo deverão pelo menos voltar a seu patamar normal verificado até o ano passado. "Definitivamente os preços administrados não terão o mesmo papel que apresentaram em 2007", prevê o economista da Corretora López León, Flávio Serrano. Ele conta com uma alta de aproximadamente 4,00% para o IPCA do próximo ano, com taxa entre 3,80% e 4,00% para os preços administrados e entre 4,00% e 4,20% para os livres. Para este ano, a López León conta com uma contribuição de 2,00% para os administrados.

Banco Central

Se as expectativas do mercado para este conjunto de preços não são tão positivas para 2008, as do Banco Central tendem ser ainda maiores. Ao longo deste ano, o BC foi duramente criticado pelos economistas em função de suas projeções para este conjunto de preços em 2007, comumente divulgadas na ata do Copom e no relatório trimestral de inflação. No último relatório, de junho, a autoridade monetária informou que projeta uma taxa de 3,2% para os administrados em 2007. No mesmo documento, os diretores da autoridade monetária explicaram que "a projeção de reajustes dos itens administrados por contrato e monitorados para 2008 foi redimensionada para 4,5%, com base em modelos de determinação endógena de preços administrados, que consideram componentes sazonais, variações cambiais, inflação de preços livres e inflação medida pelo Índice Geral de Preços".

O acompanhamento das previsões do BC e do mercado para este ano mostra um quadro a respeito de como elas foram aos poucos cedendo desde o ano passado. Mesmo assim, as expectativas apontadas pela autoridade monetária são mais elevadas do que as do mercado. De acordo com especialistas isto ocorre, entre outros pontos, porque o BC utiliza o modelo endógeno para realizar suas estimativas, ou seja, um critério regressivo levando-se em consideração as séries históricas e que usualmente superestima os valores correntes da inflação.

O mercado, por sua vez, costuma optar pelas previsões abertas, com base nas estimativas para cada uma das variáveis que compõem os preços administrados, como, por exemplo, tarifas de energia elétrica, de telefonia fixa e de combustíveis. O BC carrega, portanto, mais inércia do ano anterior em suas projeções, segundo estas avaliações.

Ainda que exista uma diminuição das estimativas para os administrados tanto do BC quanto dos analistas, a avaliação é a de que o cenário para estes preços no ano que vem não seja tão benéfico quanto o visto em 2007 até o momento. "Ocorreram fatores excepcionais este ano que não devem se repetir em 2008", compara o economista da LCA Consultores Raphael Castro. Ele cita como exemplo o reajuste da tarifa de energia elétrica em algumas capitais – principalmente em São Paulo, cujo impacto é maior sobre os índices. "É provável até termos deflação neste setor em 2007", previu, acrescentando que projeta uma variação de 2,50% para os administrados este ano ante uma taxa de 3,90% a 4,00% em 2008, já maior do que expectativa anterior, de 3,80%.