O setor elétrico brasileiro está com o futuro incerto. Com um potencial hidrelétrico ainda imenso, o País sofre para introduzir fontes de energia alternativa, enquanto fica cada vez mais dependente das poluentes usinas térmicas. O presidente da Copel, Rubens Ghilardi, conversou com O Estado a respeito dessa e de outras questões. Ele elege os ambientalistas como os principais culpados pela estagnação na construção das usinas hidráulicas, e fala, ainda, sobre o preço para o consumidor ­ que deve subir em 2009.

O Estado: Como está o panorama atual da energia elétrica, tanto no Brasil como no Paraná?

Rubens Ghilardi: A Copel foi criada para o desenvolvimento do próprio estado. Na época da criação, o Brasil, como um todo, tinha poucas fontes de energia. Foi quando criaram as empresas estatais – Cemig, Copel, Celesc, entre outras -, e o Paraná e Minas se destacaram por construir usinas na época. Os maiores produtores estaduais eram Copel e Cemig, que praticamente absorveram toda a necessidade dos estados.

O princípio do nosso modelo de setor elétrico era estatal. Naquela época, o setor era totalmente privado e estrangeiro, e não tinha investimento em geração. O País tava estagnado. Com a criação das estatais houve um investimento brutal do governo – todo esse parque gerador que está no País hoje é graças às estatais, que construíram o que está aí. A Copel e a Cemig foram as pioneiras nessa área de geração: 80% era na mão das federais, aí tinha a Copel com 6% a 7% e a Cemig com um pouquinho mais.

OE: Qual é, hoje, a principal preocupação do setor elétrico?

RG: A preocupação geral é a dificuldade de conseguir licença ambiental para a energia [hidráulica], que é altamente barata, não poluente, renovável. É difícil de entender porquê não se preocupam com energia térmica. Não se vê ambientalista falando mal de usina a carvão, a gás. Mas de hidrelétrica, sim. Eu gostaria que os ambientalistas analisassem um pouco mais para onde estão levando o País, em termos de meio ambiente, de custo.

É uma mensagem que todo o setor elétrico tem que dar ao pessoal do meio ambiente, que é pensar um pouco mais na sustentabilidade. Os filhos deles vão viver aqui e respirar esse ar que está aí. Com as usinas térmicas, não sei se vai ser esse mesmo ar. O ambientalista tem que se preocupar com isso também.

OE: Os ambientalistas têm todo esse poder, ou o problema maior está na burocracia?

RG: Têm sim. Porque eles levam isso para o Judiciário, e com as informações que chegam ao Judiciário, cria um problema. O ambientalista cria um motivo para o juiz ter preocupação – o que eu acho lógico, pois ele também tem que se preocupar com o meio ambiente. Isso acaba criando uma dificuldade maior para o País, que começa a gerar compra de usina térmica. O setor elétrico trabalha com 10 anos na frente. Hoje o nosso plano decinal está sub judice, porque está totalmente calcado em usina térmica. Os ambientalistas tinham que estar ajudando o setor elétrico a ver se esse plano é bom para o País, ou não.

OE: O preço da energia elétrica está praticamente congelado nos últimos anos, no Paraná. Como isso tem impactado nos cofres da Copel?

RG: Na realidade a energia no Brasil subiu muito. Antes de 1996, a energia elétrica no Brasil era das mais baratas do mundo. Hoje é a terceira mais cara. Principalmente pela privatização, que teve que remunerar um patrimônio que já estava amortizado. A energia passou a ser uma commodity, negociada no mercado de spot. Quer dizer, acabou valorizando, uma coisa que não deveria ter esse impacto para o consumidor. A Copel, com toda essa dificuldade, continuou mantendo uma tarifa baixa.

Em 2003, nós teríamos um reajuste de 25%, mas passamos o ano sem reajustar, fazendo os reajustes parceladamente. Conseguimos m,ais adimplência, pois quem pagasse em dia não tinha o reajuste, e quem não pagasse tinha. O nosso consumidor passou a ser adimplente, a pagar em dia, e fomos os únicos a reduzir o custo. Hoje, a Copel é a empresa que tem a energia mais barata do Brasil, e com resultados positivos. Quem está satisfeito conosco é o acionista e o consumidor.

OE: O que é mais caro, hoje, distribuir ou gerar energia elétrica? Por quê?

RG: O conceito tarifário no passado era diferente do atual. No passado, se remunerava o ativo: tinha uma tarifa que era de demanda, e uma de energia que era a remuneração dos custos. Como a geração é, basicamente, mais cara que a distribuição, normalmente a geração era cara mas amortizada em 30 anos. Por exemplo, nas usinas que têm mais de 30 anos, teoricamente, há só custo operacional. Com a mudança do modelo, o preço passou a ser livre. Então se passou a competir no mercado, com a possibilidade de cobrar mais caro que o custo. Isso criou uma tarifa de geração muito alta.

Também se abriu a possibilidade do consumidor livre, o que criou outro problema. Hoje, de 20 a 25% da demanda é de consumidores livres, que pagam uma tarifa mais barata que o consumidor cativo pagava. Há uma indecisão sobre para que lado o consumidor livre vai optar. No caso da Copel, a maioria está querendo voltar a ser cativa, porque não tem energia barata pra ele comprar. Essa confusão criada nesse modelo criou uma expectativa de um ganho excepcional paro consumidor livre.

Chegou uma época em que estava muito barato. Em 2000, chegou a ser R$ 680 o megawatt/hora. Em 2002, caiu pra R$ 4. Hoje, a produção e o mercado estão meio perdidos, e não estamos gerando mais energia. Estamos gerando térmica, que pode chegar a R$ 900 o megawatt/hora. Tem a hidráulica, de R$ 70 a cento e poucos reais, e a térmica, de R$ 400 a R$ 900. As opções estão ficando cada vez mais complicadas. Se o nosso consumidor não optar pela energia renovável e mais barata -que é a hidráulica -, a consequência vai ser pra ele mesmo, porque ele vai pagar essa conta no futuro.

Hoje, a Copel é a empresa que tem a energia mais barata do Brasil, e com resultados positivos. Quem está satisfeito conosco é o acionista e o consumidor

Rubens Ghilardi, presidente da Copel

OE: E como estão as obras da Usina de Mauá? O cronograma que prevê a entrega da obra em 2011 poderá ser cumprido ou terá que ser alterado, devido a questões judiciais?

RG: Já tivemos quatro meses de atraso em função de uma ação em Londrina, que foi para a Justiça Federal no Rio Grande do Sul, e conseguimos derrubar. O problema não era nem da Copel, era da Aneel – estavam questionando a licença ambiental porque não tinha o estudo integral das bacias do rio. A própria União entrou com recurso no STJ e cassou a liminar que estava segurando a obra. Agora tem uma nova liminar, em que a União também está sendo notificada. Estão questionando o Instituto Ambiental do Paraná (IAP) da competência de ter dado a licença.

E o Ibama, que autorizou o IAP. A Copel não tem nada a ver com o assunto. Só que o problema vem para nós, paranaenses, porque a Copel já vendeu essa energia. Se Mauá não estiver pronta, vamos ter que comprar no mercado e atender os contratos. Em 2011, eu não sei a que preço vai estar a energia. Eu sei quanto vai custar Mauá, agora quanto vai custar [a energia] no mercado, nessa época, eu não tenho a mínima ideia.

OE: Na última semana a Copel assinou contratos para comprar energia produzida a partir de biogás. O quanto as fontes alternativas de energia representam na produção de energia elétrica do Estado e o quanto pode vir a representar no futuro?

RG: Estamos com vários programas, tanto [de energia] eólica, como bagaço de cana e essa de biogás. A de biogás é um convênio entre a Copel, a Itaipu, a Sanepar e alguns órgãos do Estado.

OE: Que outras fontes de energia são potencialmente utilizáveis no Paraná?

RG: Tem o ba,gaço de cana. O Paraná tem essa possibilidade. Existe hoje em torno de 600 megawatts de potência. Mauá tem 360 megawatts. Começamos um projeto, com vários produtores e estamos implementando agora. Mas tem uma dificuldade: como o mercado mundial deu uma retraída, se não produzir álcool não tem bagaço.

Mas é um potencial muito grande. Estamos com um ou dois produtores que já estão praticamente fechando conosco. Estamos só com essa dificuldade momentânea de recursos. Eles não têm garantia que vão exportar o álcool, então ninguém quer financiar para eles. O segundo projeto que nós temos é PC a Gás são pequenas centrais hidrelétricas, de até 30 megawatts, em que pedimos parcerias, porque os detentores da licença são privados.

Outro programa é de eólicas, que também é um programa em que a Copel já comprou uma participação que tinha com um sócio privado. Em Palmas há uma pequena produção são 2,5 megawatts , mas é uma primeira experiência no Estado, que era de um fabricante desse equipamento. A Copel agora comprou uma parte dele, é dona da usina, e já fizemos o levantamento de potencial no Estado. O problema da eólica é que não se armazena vento. Ou tem vento o ano inteiro, ou tem a produção em determinadas épocas do ano.

Depois ele para. A produção mais cara, hoje, é a eólica. E temos o biodiesel. Existe um programa para pequenos produtores. Dentro dessa produção teria um gerador para produzir energia. Mas o produtor tem usado o biodiesel em substituição ao diesel. E aí é outro problema, pois o maior potencial de produção hoje é a soja, que tem um preço lá fora bem superior ao que ele faria. Então o produtor prefere comprar o diesel no posto do que produzir seu próprio biodiesel. E está se desenvolvendo um primeiro estudo com outras oleaginosas. Uma das grandes, em potencial, são algas, que têm um aproveitamento brutal. Está em desenvolvimento ainda no resto do mundo, mas é tecnicamente fácil de produzir.