Após apresentar resultados negativos durante os dois primeiros trimestres do ano e entrar tecnicamente em recessão, a indústria brasileira parou de cair em julho, ajudada, principalmente, pela Petrobras. Segundo pesquisa divulgada ontem pelo IBGE, a produção cresceu 0,4% em julho na comparação com junho. Já na relação entre julho e o mesmo mês do ano passado, houve queda de 2,5%. O crescimento na comparação entre julho e junho aconteceu porque a base de comparação (o mês de junho) é fraca. O setor havia acumulado retração em abril, maio e junho e, em um nível muito baixo, fica mais fácil mostrar retomada de crescimento.

Além disso, a expansão da indústria em julho na comparação com junho reflete principalmente, segundo o próprio IBGE, a recuperação do setor extrativo-mineral, que avançou 8,8%. O setor foi beneficiado pela extração de petróleo e gás – no Brasill, amplamente dominado pela Petrobras – que compensou em julho parte das perdas em decorrência de paralisações técnicas ocorridas em junho.

Outros setores

Apesar do grande peso da Petrobras na pesquisa, o governo pode começar a comemorar a leve recuperação em outros setores. Dos 19 ramos pesquisados pelo IBGE, dez apresentaram crescimento entre junho e julho.

Os bens intermediários tiveram o primeiro resultado positivo em cinco meses, crescendo 1%. A produção foi influenciada pela normalização da produção de petróleo.

Os bens de consumo duráveis tiveram uma produção 0,7% maior e os bens de capital mostraram crescimento de 0,4%. Apenas os semiduráveis e não-duráveis repetem a queda do mês anterior, que foi de 2,1%.

A recuperação foi influenciada pelo início da trajetória de queda dos juros. Em junho a Selic (taxa básica de juros da economia brasileira) caiu de 26,5% para 26% ao ano. Em julho, houve novo corte, para 24,5%.

A tendência é de que os números da economia continuem melhorando em agosto, quando os juros foram cortados novamente, agora para 22% ao ano, e o governo anunciou a redução do IPI para a indústria automobilística.

Outras comparações

Houve, no entanto, queda de 2,5% na produção industrial em julho em relação ao mesmo mês do ano passado. O dado também mostra que, apesar de mostrar tímida recuperação, a indústria ainda trabalha em patamares muito baixos.

Prova disso é que no acumulado dos sete primeiros meses deste ano, a produção industrial caiu 0,3%.

Na comparação entre julho de 2002 e 2003, 13 dos 20 ramos pesquisados tiveram queda. As mais significativas foram as dos seguintes setores: fumo (-60%), farmacêutico (-22,7%) e material elétrico e comunicações (-14%).

Entre os que tiveram a ampliação da produção estão: mecânica (+4,7%), metalúrgica (+4%) e extrativa mineral (+2,3%).

Setor deve fechar 2003 no vermelho

A indústria brasileira terá dificuldades para fechar 2003 no azul. O setor acumula este ano, até julho, uma queda de 0,3%. Na comparação entre julho e junho deste ano houve uma recuperação de 0,4%, interrompendo um período de dois meses consecutivos de índices negativos (2,6% em junho e 0,1% em maio).

Segundo o coordenador da pesquisa industrial do IBGE, Sílvio Sales, esse ano os índices terão que seguir positivos para que possam manter a recuperação na comparação com o ano anterior.

“É que no ano passado, o segundo semestre foi marcado pela recuperação. Os índices tem que se repetir para que consigam sobressair na comparação com 2002. A situação não piorou. A trajetória continua em queda, só que agora foi menor”, afirmou Sales.

Os dados ficam piores quando a comparação é feita com o ano anterior, apontando quatro períodos seguidos de índices negativos. Em julho de 2003 com julho de 2002, ficou em -2,5%, em junho -2,1%, maio -0,4 e abril -3,8%.

No levantamento de julho 2003 com julho 2002 todos os setores apresentaram índices negativos. O que teve resultado menos pior foi o de intermediários (-0,7%), alavancado principalmente pelos combustíveis e lubrificantes básicos, que inclui o petróleo e o gás, item que ficou em 2,2%.

A maior queda foi nos duráveis (-6,4%), tendo como principais reflexos mobiliários (-10,2%), materiais elétricos e de comunicação (-10%) e eletrodomésticos (-6,4%).

Os não duráveis (-6,3%) apresentaram forte queda os medicamentos (-22,6%), vestuário (-13%) e bebidas (-10,8%).

Os bens de capital (-6,1%) refletiram as taxas de energia elétrica (-14%) e transportes (-9,1%).