Melhor amigo dos profissionais da voz, o gengibre passou por grandes mudanças na produção mundial nos últimos anos. No Brasil, até a década de 90, o ritmo na roça do gengibre era acelerado e focado na exportação, contudo, menos de dez anos depois, a falta de qualidade do produto fez as vendas caírem. A esperança dos poucos produtores que restaram está na produção do gengibre orgânico, que conquistou novamente o mercado externo, e no desenvolvimento de novas tecnologias.

A maior plantação de gengibre no Brasil fica na cidade de Santa Maria de Jetibá, no Espírito Santo. As principais áreas de produção da planta in natura são as regiões litorâneas de São Paulo, Paraná e Santa Catarina, mas também há produção no litoral do Espírito Santo, litoral nordestino e algumas cidades de Minas Gerais, Goiás e Rio de Janeiro. Durante a invasão holandesa, de acordo com estudiosos, os cariocas realizaram a primeira plantação de gengibre no país.

No Paraná, Morretes é o maior produtor entre as 24 cidades que ainda cultivam o gengibre. Nessa região, o mês de julho é o da colheita e a plantação é feita entre agosto e outubro. O gengibre é vendido in natura, em pó ou óleo, e é utilizado principalmente na indústria de alimentos. No mês da colheita, fim do período de festas juninas, é utilizado em grande escala para temperar bebidas alcoólicas como o quentão. No estado, ainda é matéria prima do conhecido refrigerante da Cini, Gengibirra. O óleo é preferido pela indústria farmacêutica e pelas empresas de perfumaria.

O ritmo de vendas na década de 90 caiu, e então surgiram projetos para manter a produção do gengibre no Paraná. Uma parceria com a Universidade Federal do Paraná (UFPR) fez com que houvesse uma troca entre a demanda dos produtores e o estudo dos mestrandos e doutorandos na área agrícola. “No final da década de 90 a exportação começou a cair por conta do uso indiscriminado de calcário, agrotóxicos, falta de higiene e limpeza do rizoma. Começamos, então, a trabalhar com a modificação para o orgânico, por que havia a necessidade de privilegiar a saúde do consumidor, e conquistamos novamente o mercado”, conta Neusa Gomes de Almeida, técnica do Departamento de Economia Rural da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (Seab).

A demanda do produtor de gengibre vira proposta de trabalho para alunos da UFPR, através da Seab. Nos cursos de mestrado e doutorado, os alunos analisam a cadeia produtiva, qualificam o produto, estudam e devolvem a demanda para o produtor, oferecendo novas formas de trabalho mais rentáveis e com mais tecnologia.

Mercado

Entre janeiro de 1996 e dezembro de 2006, o Brasil exportou em média sete mil toneladas por ano e importou em média 45. No mesmo período, a exportação de São Paulo foi de 4 mil toneladas, a do Paraná foi de 1.200t, e a de Santa Catarina foi de apenas 300t. Na safra 2005/2006, só a região de Morretes negociou 540/t com o mercado interno e o externo. Enquanto isso, no resto do mundo, a Índia representava 6% da oferta mundial de gengibre e a China produzia mais de 50 mil toneladas do produto. Tailândia, Vietnan, Costa Rica e Honduras também produziram boa parte do que movimentou esse mercado.

De acordo com Julio Raineth Filho, único exportador de gengibre em Morretes, o clima atrapalhou as últimas colheitas. “Ano passado foi razoável, mas em 2008 perdemos muitas caixas de gengibre no porto devido às grandes chuvas em Santa Catarina. Os navios não conseguiam atracar para levar o produto para o exterior”, revela. Ele acredita que a safra de 2010 também não surpreenda, já que a plantação foi danificada pelo excesso de chuvas no litoral paranaense.

“Antigamente nossa exportação era para vários países, agora é só para a França. Lá temos uma parceria e trabalhamos apenas com a demanda do mercado. Quantificamos a produção para não ter preju&,iacute;zo para os produtores”, explica Neusa. Também visando evitar prejuízo, o produtor escolhe com que mercado quer trabalhar. “No mercado interno, o preço é melhor mas a demanda é menor. Apesar do mercado brasileiro estar aumentando, ainda não dá para comparar com o exterior”, lembra Julio.

Nada se perde, se transforma

A parte de cima do gengibre, que era descartada na colheita do rizoma, se tornou nova fonte de renda para os produtores depois do desenvolvimento de um estudo realizado na UFPR. A tese da doutora em Tecnologia de Alimentos Isadora Balsini Lúcio comprovou que não é apenas a parte que fica em baixo da terra na plantação do gengibre que é comestível. As inflorescências, ou seja, ramos modificados, com flores, têm a identidade e a qualidade que são padronizadas pelo Instituto Biodinâmico (IBD) e podem ser classificadas como fonte de fibra alimentar.

O estudo apontou que as inflorescências possuem mais cálcio, magnésio e potássio do que, por exemplo, o brócolis e a couve-flor. Tem, ainda, vitamina A, que não está presente no rizoma. A tese compara as duas partes da planta: “As inflorescências do gengibre orgânico possuem teores maiores de cálcio, magnésio, zinco e potássio quando comparadas com o rizoma, sendo que este possui mais sódio e vitamina C do que as inflorescências”.

Na Índia, o produto já era utilizado no preparo de infusões. Isadora produziu, para o estudo, suco, salada e chá com a inflorescência do gengibre, e levantou que o chá é realmente o preferido do público, com 80% de aceitação. O produto já passou a ser preparado em Morretes e exportado para a Europa. (FD)