Após três meses em queda, os preços no atacado haviam retornado ao positivo em agosto, mas cederam novamente em setembro, diante de uma rodada adicional de recuo da soja no mercado internacional. Mesmo assim, o movimento deve ser passageiro, avaliou nesta terça-feira, 07, o superintendente adjunto de Inflação da Fundação Getulio Vargas (FGV), Salomão Quadros.

“Acho que é passageiro, e, se não for passageiro, é muito localizado. É mais efeito de queda de preço de soja”, justificou. Em setembro, o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA) recuou 0,18% no âmbito do Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI), que subiu 0,02%, abaixo de todas as projeções do mercado. A soja em grão, sozinha, ficou 5,50% mais barata, contagiando derivados, como o farelo de soja (-2,09%).

“É impressionante como esse ano a safra americana está tendo uma sucessão interminável de boas notícias, que sempre surpreendem e superam a melhor das expectativas”, comentou Quadros, citando esta como a razão para a repetição das quedas no preço do grão. Antes, o superintendente apostava na chegada ao limite. “Fui desmentido pelos fatos. A produtividade, que se esperava excelente, é ainda melhor. Todos os obstáculos foram superados com louvor”, disse.

As notícias favoráveis sobre o clima também impactaram os preços do milho (-2,05%) e trigo (-9,19%). “Com essa produção toda, os estoques mundiais dos três grãos, da soja em particular, estão disparando. Há muitos anos não se via isso”, citou Quadros, acrescentando que essa elevação dos produtos à disposição para comercialização provoca o tombo nos preços. Mas, ao contrário dos últimos meses, nos quais se assistiu a um ciclo de deflações, o superintendente espera um efeito mais efêmero sobre os índices. “A ocorrência aqui deve ser mais rápida”, disse.

Em setembro, o preço do café (-0,27%) também contribuiu para a desaceleração do IPA, mas num sentido inverso. “As más notícias têm feito com que o preço suba. Há regiões de cultivo de café que vão sofrer um pouco com período de pouca chuva no Brasil. Como o Brasil ainda é um mercado importante, o que acontece aqui afeta o mercado. Mas ele sobe, para um pouco, depois sobe de novo. No índice desse mês (setembro), o café parou de subir. Mas ele vai subir de novo, porque a novidade desfavorável ainda não foi captada”, explicou.

De acordo com Quadros, a soja tirou 0,29 ponto porcentual do IPA, enquanto o café contribuiu com -0,15 ponto porcentual. A taxa só não foi mais negativa por causa da contribuição dos bovinos (+0,11 pp), que ficaram 3,99% mais caros em setembro. A perspectiva de maior demanda para exportação tem mexido com os preços de carnes bovinas, tanto no atacado quanto no varejo, bem como de seus similares ou substitutos – aves e suínos.

“A queda da soja vai trazer (impacto no varejo), mas menor porque é produto de exportação. Mas pode ter efeito suavizador nos custos de produção das carnes”, disse o superintendente. Em setembro, também houve pressão de alta vinda de cerveja e chope, cujos preços aumentaram 4,07% no atacado.