São Paulo

  – O dólar comercial registrou ontem sua terceira queda consecutiva e terminou o dia cotado a R$ 2,910 na compra e R$ 2,914 na venda, 1,05% abaixo do valor da véspera. Os ingressos de recursos externos ao país e o bom desempenho dos títulos da dívida externa brasileira garantiram mais um dia de valorização do real. O C-Bond foi mais uma vez a vedete do mercado, ao ultrapassar o patamar inédito de 90% do seu valor de face. No final da tarde, o papel valia 90,125% do seu valor, com alta de 0,27%.

O C-Bond já subiu mais de 30% neste ano, graças à melhora da confiança dos investidores estrangeiros no país e aos altos juros pagos pelos ativos brasileiros. Em setembro do ano passado, quando o mercado especulava com a eleição presidencial, o papel chegou a valer 48,8% do seu valor de face. De lá para cá, a valorização é de 84%. A demanda pelos papéis da dívida brasileira vem derrubando o risco-país e favoreceu a captação de US$ 1 bilhão em bônus da República, com demanda dez vezes superior à oferta inicial (de US$ 750 milhões).

– O fluxo de investimentos para América Latina está bastante firme e o Brasil é um dos mais recomendados. A combinação entre inflação em baixa, expectativa de queda de juros e de aprovação das reformas estão garantindo a consistência dos papéis – disse Felipe Brandão, diretor de mercados emergentes da López & León Brokers. Brandão afirma que a captação feita pelo governo em abril deu ainda maior fôlego aos papéis.

Segundo ele, as realizações de lucros devem acontecer, como já foi observado ontem, mas há espaço para o C-Bond avançar ainda mais.

– O C-Bond acima dos 90% não deve assustar ninguém. Basta comparar a Brasil situação do Brasil com a dos demais países emergentes para ver que estamos em melhores condições – disse Ofir Elias Filho, diretor da área internacional da corretora Liquidez.

Para o analista, a demanda expressiva pelos papéis brasileiros mostra que o Brasil ainda paga taxas de remuneração bastante elevadas, enquanto os fundamentos da economia se mostram cada vez mais sólidos. Os números da balança comercial, o superávit primário e a redução da relação dívidaXPIB são alguns desses fundamentos, além da expectativa positiva com as reformas.

– Há compradores finais para o C-Bond nos atuais patamares, o que sustenta o papel. É claro que alguma má notícia, principalmente sobre as reformas, pode trazer uma realização de lucros um pouco mais profunda. Mas isso não muda os fundamentos – disse Elias Filho.

No mercado de câmbio, a tendência de baixa foi determinada pelo fluxo cambial positivo e pela expectativa de novas captações externas, além da influência do C-Bond. As exportações continuam bem acima das importações e garantem oferta de moeda aos endividados em dólares. A provável captação de pelo menos US$ 750 milhões da Petrobras foi outro fator inibidor de pressões. Hoje o Itaú captou US$ 50 milhões em eurobônus e outras instituições devem trazer recursos nos próximos dias.

A inflação em baixa continuou a produzir efeitos no mercado de câmbio. Nos negócios na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F), os juros futuros se ajustaram para baixo, num sinal de que continuam fortes as apostas na queda dos juros básicos da economia. O Depósito Interfinanceiro (DI) de julho deste ano ficou em 25,68%, contra 25,84% do fechamento de anteontem. O DI de janeiro de 2004, o mais negociado, recuou de 23,66% para 23,52% anuais. A taxa Selic é hoje de 26,50% ao ano.