São Paulo (AE) – As reservas internacionais líquidas ajustadas do Brasil (que excluem basicamente os empréstimos do FMI) têm tudo para ultrapassar os US$ 30 bilhões até o final de fevereiro, retornando aos níveis observados antes da crise eleitoral de 2002. É um resultado direto das compras de dólares no mercado pelo Banco Central e pelo Tesouro Nacional – a primeira engordando diretamente as reservas, a segunda evitando o seu emagrecimento -desde o final do ano passado.

Apenas o BC, segundo relatório divulgado ontem pelo Bradesco, já teria comprado US$ 7,5 bilhões no mercado desde outubro do ano passado. São US$ 2,65 bilhões em 2004 e US$ 4,85 bilhões até o dia 15 de fevereiro. Somando as compras do Tesouro, via Banco do Brasil, esse número sobe para US$ 10,7 bilhões.

"Diante dos números, não se pode afirmar de maneira alguma que o BC vem sendo tímido no câmbio ou que não tem aproveitado o bom momento de fluxos externos para fortalecer as reservas internacionais", defende o economista chefe do Bradesco Octavio de Barros. "Pelo contrário: tem sido bastante ousado tanto nas compras de dólares quanto na redução do passivo cambial do governo", acrescenta.

O trabalho de recomposição de reservas tem um custo fiscal não desprezível, em função da expansão monetária gerada pela compra dos dólares que precisa ser esterilizada. "É um custo elevado diante de tamanho volume comprado, é verdade, mas cujos benefícios são ainda maiores", avalia Barros.

Os números relacionados à redução do passivo cambial neste cenário também impressionam. Desde outubro de 2004, os resgates integrais dos vencimentos de cambiais e mais recentemente as colocações do swap cambial "reverso" somam um volume próximo dos US$ 8,3 bilhões, considerando os US$ 2 bilhões em swap reversos integralmente absorvidos hoje pelo mercado. O que leva a uma participação da dívida atrelada ao câmbio de apenas 6,6% no bolo total. Em janeiro último essa parcela representava 10,3% da dívida pública interna. Em janeiro de 2004, quase um quarto de toda a dívida: 23,8%.

"Nesse ritmo, o Banco Central pode zerar o passivo cambial até o final deste ano. É bem provável que isso aconteça" estima o economista Darwin Dib, do Unibanco. Quando chegar a este ponto, lembra Dib, o governo terá utilizado os quatro instrumentos de mercado de que dispõe para enxugar a liquidez no mercado cambial. Em ordem de preferência: 1) os resgates integrais nos vencimentos de cambiais; 2) as contratações do BB, sempre mais discretas; 3) as compras do BC nos leilões e; 4) a recompra antecipada de dívida cambial.

Estes são os instrumentos "de mercado" que o governo pode utilizar em sua política cambial, com os quais atua simulando ser mais um agente do mercado. Instrumentos adicionais passariam a ter provavelmente caráter administrativo (por exemplo mudanças no Imposto sobre Operações Financeiras – IOF), na qual o governo passa a se valer de seu poder institucional, uma hipótese com a qual os analistas ainda nem de longe trabalham. E quando o governo zerar sua posição cambial? "Terá zerado essa posição, o que é muito saudável, e acho improvável que venha a ficar ?ativo? em câmbio", avalia o economista do Unibanco, refletindo a análise de boa parte do mercado.