Nova York

(Das agências) – O risco-país brasileiro superou, no final da tarde de ontem, os 1.580 pontos, ou 15,80 pontos acima dos títulos do Tesouro norte-americano, os chamados Treasuries. O nível, medido pelo índice EMIB+ do banco JP Morgan, está acima do risco da Nigéria. Agora, o Brasil só fica atrás da Argentina, cujo risco é o mais alto do mundo. Trata-se do nível mais alto desde as vésperas da flutuação do real. Em 14 de janeiro de 1999, dias antes da desvalorização do real, o risco Brasil atingiu 1.779 pontos.

Além do risco-país que disparou, o dia de ontem foi marcado pela decisão da agência de avaliação financeira Moody’s de rebaixar para negativa a perspectiva da nota do teto da dívida em divisas do País. Os dois fatos, mais a divulgação de pesquisa que não altera o quadro eleitoral, foram considerados responsáveis por grande nervosismo no mercado financeiro que teve como conseqüência uma nova alta do dólar e uma nova queda no volume de negócios na Bolsa de Valores de São Paulo.

Quanto ao risco-país, o relatório do J.P.Morgan diz que “os spreads (custo entre a captação e o repasse dos recursos) estão muito elevados e implicam um default (moratória) dentro de seis meses”. Isso quer dizer que os investidores ainda estão preocupados com a possibilidade do Brasil ter dificuldades de rolar sua dívida interna nos meses que antecedem as eleições presidenciais de outubro. O economista-chefe do banco Safra, Eduardo Faria, comentou que a desvalorização dos papéis da dívida brasileira já estaria contagiando outras economias mundiais e podem ser sentidos no mercado global, empurrando para baixo os papéis de países como a Rússia e o México. O Uruguai, por exemplo, mudou ontem seu regime cambial, para flutuante.

Mas “os epicentros desta instabilidade são sem dúvida o Brasil e Nova York. Nos EUA, há temor sobre a recuperação da economia e perspectivas que as empresas tenham ganhos abaixo do mercado. O economista comentou a pesquisa do Ibope, divulgada ontem, na qual o candidato José Serra não sobe. “O mercado esperava que a pesquisa viesse com Serra um pouco melhor, e ele não veio.” O economista Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central, traçou um quadro ainda mais difícil. Ele acredita que o risco-Brasil poderá alcançar os 4.000 pontos.

Segundo Pastore, o mercado está passando por um momento de aversão ao risco de países emergentes. Esse movimento, avalia, pode ser em função da desvalorização do dólar no mercado internacional e o início da reversão da política monetária dos Estados Unidos. “Ontem (anteontem), o risco-Turquia já subiu. Agora, como risco-Brasil já estava subindo com os outros em baixa, aumentando o risco dos emergentes, o risco-Brasil também vai subir. E o risco-Brasil não pára em 2.000 pontos. Pode ir a 4.000 pontos fácil”, disse Pastore.

Entre os motivos para esse crescimento do Risco-Brasil, na opinião do ex-presidente do Banco Central, estão a vulnerabilidade da economia (em função do elevado déficit em conta corrente e da relação dívida x PIB) aliada à sucessão presidencial. Segundo Pastore, o mercado já calculou os riscos de uma vitória do candidato tucano José Serra e do petista Luiz Inácio Lula da Silva. Para ele, toda volatilidade não é resultado de especulação, mas de fatores reais. “Os mercados não ficaram loucos, isso não é uma bruta irracionalidade e nem especulação. Se o Lula não apresentar o programa de governo que acalme o mercado, o risco-país não vai mudar”, afirmou Pastore.

O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Amaury Bier, reagiu com irritação ao rebaixamento da Moody’s. Ele a classificou de “infeliz”. “Leva tempo para o mercado reagir às medidas do governo e isso (o nervosismo do mercado financeiro) também está ligado a outros fatores como a conjuntura internacional, além de outros fatos como a infeliz decisão da Moodys de nos colocar em avaliação negativa”, disse Bier.

BC atua, mas o dólar dispara e a bolsa cai

São Paulo

(Das agências) – O dólar comercial fechou o dia de ontem em forte alta, apesar de intervenção no mercado com venda de dólares confirmada pelo Banco Central. A moeda norte-americana fechou cotada para venda por R$ 2,770 (compra a R$ 2,765) pela taxa do Banco Central, alta de 2,33% sobre o fechamento de ontem (R$ 2,707 para venda), um dia após a decisão do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) de manter a taxa básica de juros em 18,5% ao ano. O valor do fechamento de ontem foi o segundo mais alto do ano. Enquanto o dólar disparava, a Bovespa despencou em um dia de muito nervosismo. O principal indicador da Bolsa de Valores de São Paulo, o Ibovespa, despencou 5,05%, queda que também se acentuou após a divulgação pela agência internacional de classificação de risco Moody’s da redução da perspectiva de ratings do Brasil de “estável” para “negativa”.

“O BC bateu (interveio) no mercado, mas o dólar já está voltando (a acentuar a alta). Antes da atuação, eles pediram spread (cotações) para uns 10 bancos, coisa que não vinham fazendo. Era só para cinco (que vinham pedindo)”, relatou o operador de um banco de grande porte. Outro operador acrescentou que, com o atual cenário, a venda de dólares pela autoridade monetária é inócua. “Enquanto ele coloca 10 milhões (de dólares), os grandões tomam 30 (milhões) e o dólar volta a subir”, comentou o profissional.

O nervosismo do mercado, que tem origem principalmente nas incertezas quanto às políticas monetária e econômica do futuro governo do País, aumentou ainda mais ontem após a divulgação de nova pesquisa de intenção de voto que não altera o quadro eleitoral. Somada à redução da perspectiva da dívida brasileira pela agência Moodys, a pesquisa fez o risco-Brasil disparar para cima dos 1.500 pontos-básicos, segundo o índice Embi+, do banco JP Morgan.