Rio  – Nas últimas semanas, companhias de capital aberto iniciaram uma corrida para sondar as 307 auditorias independentes brasileiras, com o objetivo de cumprir o rodízio desses prestadores de serviços determinado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A troca obrigatória tem início em 14 de maio. O objetivo é fechar brechas para fraudes em balanços, o que vem ocorrendo nos últimos anos com multinacionais, como a gigante de energia Enron e, recentemente, a Parmalat. E foi justamente o caso da empresa de alimentos que colocou em xeque o novo sistema, antes mesmo dele vigorar: a Itália determina a substituição compulsória de auditores, o que não impediu falsificações contábeis e o desvio de dinheiro pelos donos da Parmalat.

A falcatrua na gigante italiana é, no entanto, apenas um dos argumentos dos auditores para condenar a eficiência do rodízio. De acordo com especialistas, as empresas têm formas diversas de driblar o sistema. Uma delas é contratar a equipe responsável pela auditoria anterior, o que compromete a finalidade do novo dispositivo. E mais: todos são unânimes em afirmar que auditoria não impede fraudes.

Segundo Henrique Luz, sócio da PricewaterhouseCoopers, uma auditoria dá parecer dentro de certas normas, mas não é garantia contra fraude. Ele conta que, na Itália, o rodízio acontece a cada nove anos – no Brasil, a lei determina troca a cada cinco – e 75% das fraudes descobertas ocorreram nos primeiros dois anos da mudança de auditores.

– A CVM criou o rodízio para evitar que a relação entre auditor e cliente, depois de anos em contato, não desse espaço a acordos para fraudes. Mas a troca cria um outro problema, que é a falta de conhecimento dos novos auditores do funcionamento da empresa auditada. A falta de experiência e conhecimento da operação pode facilitar irregularidades – argumenta Luz. – A Parmalat, por exemplo, mudou de auditoria há três anos.

O foco de uma auditoria independente são as modalidades de fraudes conhecidas. Ou seja, a prestadora desse serviço não refaz toda a contabilidade das empresas e usa um sistema de amostragens das contas. E Luz reconhece:

– A mente humana é muito mais fértil que qualquer sistema de controle.

O presidente do Instituto Brasileiro dos Executivos de Finanças (Ibef), Reynaldo Aloy, também é contrário ao rodízio e diz que não há sistema que blinde empresas contra fraudes. Para ele, só uma postura ética dos executivos de companhias pode impedir falsificações nos balanços.

O gerente de Normas de Auditoria da CVM, Ronaldo Cândido da Silva, admite que auditoria não impede fraudes, mas argumenta que o rodízio não é inócuo e que dará mais transparência e credibilidade ao setor. Silva diz ainda que o órgão ficará atento à contratação de equipes pelas auditorias substitutas e vetará a operação se entender que compromete o novo sistema.

Outra forma de driblar o rodízio que está em discussão nos bastidores é a co-auditoria, que funcionaria da seguinte forma: a nova auditoria inspeciona as contas de uma companhia, mas a responsável pelo parecer final – sem aparecer no contrato e assinar o documento – seria o prestador de serviço anterior em razão da relação de confiança estabelecida nos últimos anos. Nesse caso, as três partes precisam de um acordo informal.

– O código de ética da categoria impede subcontratar ou ser subcontratado. O auditor tem que seguir essas regras ou poderá ter o registro cancelado – avisa Silva.

Para Paulo Sérgio Machado, sócio da BKR – Lopes Machado Auditores Independentes, a co-auditoria não tem futuro:

A prática é proibida e um caso desses explodiria como uma bomba no mercado. Um cliente não vai arriscar tanto. Mas a contratação de equipe não tem impedimento legal.

Definição sai ainda este mês

Um embate de cinco anos terá fim no dia 14 de maio. As empresas de auditoria lutaram – inclusive na Justiça – para que o rodízio não fosse adotado. O mecanismo está previsto na resolução 308, de 1999, da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A troca obrigatória deve ser realizada a cada cinco anos, com um objetivo simples: impedir que uma relação estreita entre auditor e executivo de companhia inspecionada dê espaço para esquemas de fraude.

Outro argumento da CVM é que, após muitos anos, profissionais tendem a relaxar mais no seu trabalho, o que também pode facilitar adulteração de balanços. Os auditores dizem exatamente o contrário: para a classe, um novato, por não conhecer a empresa examinada, pode passar por cima de fraudes sem perceber.

O setor alega ainda que nenhum país desenvolvido do mundo, exceto a Itália, adotou o esquema de rodízio. Equador, Índia e Qatar são os outros que o utilizam. Mesmo assim, os italianos estão revendo o sistema, principalmente depois do rombo bilionário na Parmalat.

Para Eduardo Sampaio, presidente da Kroll Brasil, maior empresa do mundo de consultoria em gerenciamento de riscos, outra mudança merece destaque. A resolução 308 vai coibir conflito de interesses no segmento. A partir de maio, fica vedada a prestação de auditoria e consultoria para uma mesma companhia.

– Essa prática era comum e as empresas ganhavam mais com consultoria e outros serviços do que com auditoria. Isso foi o que levou ao fechamento da gigante de auditoria Arthur Andersen, envolvida em diversos casos – recorda Sampaio.