O impacto da valorização do dólar no nível de endividamento das duas maiores fabricantes de celulose do Brasil, Fibria e Suzano Papel e Celulose, levou analistas e investidores a questionarem os diretores de ambas as empresas a respeito da possibilidade de descumprimento de cláusulas existentes em contratos de financiamento. Em meio a explicações e justificativas, os executivos fizeram questão de mostrar que o mesmo câmbio que afeta a linha financeira também beneficia os resultados operacionais. A esperança é de que, com um câmbio mais favorável, os dados do quarto trimestre ajudem a reduzir a desconfiança dos analistas, os mesmos que sugerem aos investidores distância do setor neste momento.

Como o câmbio de fechamento do terceiro trimestre ficou em R$ 1,85, cotações inferiores a esse patamar no final do quarto trimestre podem surtir efeito inverso ao visto entre julho e setembro e resultar em impacto positivo na linha financeira. Projeções da Fibria indicam que, se o dólar encerrar dezembro em R$ 1,75 e os mesmos fundamentos do terceiro trimestre forem mantidos, o resultado financeiro negativo de R$ 2 bilhões entre julho e setembro pode dar lugar a ganho de aproximadamente R$ 900 milhões no final do ano. “Isso já mostra uma grande reversão de quadro”, destacou na semana passada o diretor financeiro e de Relações com Investidores da Fibria, João Elek, um dos executivos questionados sobre o prejuízo bilionário da companhia no trimestre (R$ 1,114 bilhão).

Situação semelhante foi vivida pelo presidente da Suzano, Antonio Maciel Neto. Diante de jornalistas, analistas e investidores, o executivo foi questionado sobre a performance da empresa e explicou que o prejuízo líquido de R$ 425,564 milhões reportado no terceiro trimestre seria anulado caso o dólar tivesse encerrado o intervalo no patamar de R$ 1,70. Da mesma maneira, o teto estabelecido de alavancagem da companhia, de 4 vezes a relação entre dívida líquida e Ebitda, não teria sido superado – ficou em 4,2 vezes ao final do terceiro trimestre.

Maciel destacou que esse patamar pode ser superado durante um trimestre, mas não por dois trimestres consecutivos. E se mostrou confiante no não descumprimento do patamar acordado. “Com o câmbio atual (na casa de R$ 1,70), a alavancagem volta a ficar abaixo de 4 vezes”, afirmou o presidente da Suzano, em nova declaração sobre a importância do efeito cambial no final deste ano.

Operacional

O atual patamar do dólar, em níveis próximos a R$ 1,70, também teria impacto positivo na linha operacional das empresas, que ao longo do terceiro trimestre chegaram a trabalhar com cotação média de R$ 1,60. As exportações respondem por aproximadamente 90% da receita da Fibria e 50% do resultado da Suzano e por isso qualquer valorização do dólar em relação ao real é favorável do ponto de vista de geração de caixa. Principalmente em um momento no qual a demanda internacional dá sinais de debilidade e os preços da celulose apresentam tendência de queda – compensada parcialmente pelo efeito cambial. “O câmbio a R$ 1,75 reforçaria nossa posição de ter um resultado robusto (no quarto trimestre)”, destacou Elek

Apesar de a moeda norte-americana ter apresentado forte tendência de valorização apenas no final de setembro e de os preços internacionais de celulose e papel estarem em queda, o efeito cambial ajudou a Suzano a registrar incremento de 0,4% na receita do terceiro trimestre, em relação ao segundo trimestre deste ano, para R$ 1,229 bilhão. A receita da Fibria caiu 0,7% em igual comparação, para R$ 1,449 bilhão, a despeito da desvalorização de 2% no preço médio da celulose vendida no mercado externo.

O câmbio mais favorável ajudaria a impulsionar também o Ebitda das companhias, considerado o termômetro de geração de caixa. Após cair no terceiro trimestre, o Ebitda das duas fabricantes tem perspectiva diferente para o quarto trimestre, não apenas devido à expectativa da variação cambial como também ao movimento de redução do custo caixa de produção de celulose.

Nessa linha, o principal destaque do terceiro trimestre foi a Klabin, cujo Ebitda cresceu 10% em relação ao terceiro trimestre do ano passado, para R$ 277,406 milhões. O montante, explicado em grande parte pela redução dos custos, foi o melhor resultado trimestral da Klabin desde o terceiro trimestre de 2004, em contraste com o prejuízo líquido de R$ 243,055 milhões reportado no período pela maior fabricante de papeis de embalagens do País.

De acordo com o diretor geral da companhia, Fabio Schvartsman, o resultado do quarto trimestre também deverá apresentar crescimento próximo de 10%, na comparação com o mesmo período do ano passado, em linha com o ocorrido no terceiro trimestre. “Vemos uma boa chance de progresso de resultados mesmo em condições adversas”, afirmou, em referência à situação de incertezas da economia mundial.