O trabalho no setor metalúrgico, no Paraná, está voltando aos níveis anteriores à crise. A constatação pode ser feita não apenas com observações, mas também nos números.

O nível de horas extras nas montadoras da Grande Curitiba aumentou sensivelmente e as empresas vêm ocupando quase toda a capacidade instalada. No segmento de máquinas e equipamentos, a quantidade de horas extras foi tanta que as empresas se viram obrigadas a aumentar as contratações.

Entre janeiro e abril, o número de horas pagas pelas montadoras paranaenses, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cresceu 5,8% em relação ao mesmo período do ano passado.

Já o setor de máquinas e equipamentos teve estabilidade, no período (0,23%). Porém, o setor contratou 11,83% mais no quadrimestre. Já as montadoras ainda não transformaram as horas extras em contratações, que aumentaram 0,85%.

Os aumentos, de acordo com o economista Cid Cordeiro, do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), já eram esperados.

“São setores que estão entre os que mais sofreram com a queda da economia, no ano passado. Com a recuperação, estão recuperando o que perderam e voltando aos patamares pré-crise”, analisa.

Para Cordeiro, os setores costumam ter movimentos parecidos: com a demanda melhorando, aumentam a produção primeiro utilizando horas extras dos empregados. Se a demanda continua alta, passam a contratar.

Nas indústrias de máquinas e equipamentos, o fenômeno já aconteceu no final do ano passado e o número de horas pagas se estabilizou, explica o economista. Nas montadoras, ele interpreta que, com as horas extras cada vez mais recorrentes, pode haver espaço para mais contratações.

Sábados

O secretário-geral do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba (SMC), Jamil Davila, confirma o aumento nas horas extras no setor, em especial nas empresas do segmento automotivo, que empurra o comportamento para toda a cadeia. “É um sinal claro de que a demanda por produção tem crescido”, interpreta. Segundo ele, o trabalho aos sábados tem sido comum nas montadoras da região.

De acordo com Davila, as jornadas de trabalho estão maiores, mesmo depois do fim da redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) dos automóveis, em março.

Ele conta que a demanda por trabalho é tanta que muitas indústrias estão trabalhando no limite de sua capacidade instalada. Mas lembra que o fato, apesar de positivo, pode impedir novas contratações no setor. “Horas extras demais põem em risco a segurança e a saúde do trabalhador”, completa.

Ainda assim, Davila diz que o Sindicato entende a situação da maioria das empresas. “Muitas não estavam contando com esse aumento rápido da demanda”, frisa, lembrando que o volume de demissões no setor, durante a crise, não foi tão grande, e isso fez com que as indústrias já tivessem um bom efetivo na retomada.

PLRs

Davila lembra, também, que o bom momento do setor não vem refletindo só em mais horas extras. Os bons acordos de Participação nos Lucros e Resultados (PLR), fechados recentemente na maioria das empresas do setor, são, para ele, fruto dessa retomada. “Em média, os acordos cresceram 57% em relação aos fechados em 2009”, informa.

Em contrapartida, o sindicalista lembra que alguns segmentos ainda não recuperaram o ritmo de antes da crise. O exemplo mais claro é das indústrias que fornecem ferramentas ou máquinas aos setores de madeira e móveis.

“Estamos até com dificuldade em renovar os acordos de PLR”, diz. Ele ressalta, no entanto, que essas indústrias, ao menos, não estão mais demitindo: “O segmento está estabilizado, mas em um nível baixo.”