País símbolo da crise financeira de 2008, quando sucumbiu ao peso de uma dívida bancária mais de dez vezes o tamanho do seu Produto Interno Bruto (PIB), a Islândia será uma das primeiras economias desenvolvidas a deixar para trás a recessão.

Além do pacote de socorro de US$ 10 bilhões, liderado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), o ministro de Assuntos Econômicos da Islândia, Árni Páll Árnason, atribuiu a retomada do crescimento à dura lição aprendida pelos islandeses nos últimos três anos: não gastar mais do que se ganha. Ele estima que o país cresça 3% neste ano, depois de uma contração de 6,9% em 2009 e de 3,5% em 2010.

A Organização Para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e agências de classificação de risco como a Moody’s dizem que, apenas três anos depois do colapso financeiro de 2008, a Islândia voltará a crescer neste ano, sendo um dos primeiros países desenvolvidos a sair da crise econômica.

“Prevemos uma aceleração moderada do crescimento econômico na Islândia”, disse à Agência Estado Kathrin Muehlbronner, analista da Moody’s em Londres, que atribui um rating de Baa3 para a Islândia, um grau abaixo da nota Baa2 do Brasil. “Essa recuperação está acontecendo antes do esperado.” Kathrin, da Moody’s, estima que a economia islandesa crescerá 2,2% em 2011 e 2,8% em 2012.

A OCDE projeta taxas parecidas para o PIB islandês: 2,2% neste ano e 2,9% no próximo. “Isso deve-se, em parte, ao desempenho positivo das exportações, uma vez que a moeda desvalorizou-se fortemente e os preços dos seus principais produtos de exportação vêm subindo”, explicou. “O consumo privado também deve ter uma aceleração moderada, influenciado por aumentos dos salários.”

A coroa islandesa chegou a perder mais de 80% do seu valor em relação ao euro quando a bolha de crédito estourou em setembro de 2008. Na época, os três bancos privados do país deram um calote de US$ 85 bilhões na sua dívida. O desemprego chegou a bater 9,3% em fevereiro de 2009. A OCDE estima que o desemprego em 2011 cairá para 7%.

Segundo o relatório mais recente da OCDE sobre a Islândia, a economia do país parou de contrair no final do ano passado e a recuperação tem sido puxada pelos investimentos de empresas e pelo consumo privado.

Vida real

Em cafés, lojas de varejo e escolas da capital Reykjavik, a vida ainda não voltou ao normal e para o cidadão comum é muito cedo para se falar em recuperação econômica da Islândia. “Há ainda muita frustração entre as pessoas, pois a recuperação econômica parece muito lenta,” disse, por telefone à Agência Estado, Magnús D. Michelsen, 21 anos, que trabalha na relojoaria da família, no centro da capital islandesa.

“O poder de compra dos salários continua caindo, pois os preços de produtos locais e importados estão cada vez mais caros e os salários não sobem.” Michelsen conta que em setembro de 2008, quando a crise financeira mundial atingiu a Islândia em cheio, foi, apesar de aparente paradoxo, um mês de vendas recorde de relógios Rolex na sua loja: com a desconfiança da população em relação ao governo, os relógios Rolex passaram a ser vistos como um ativo seguro como poupança, pois podiam ser vendidos em qualquer parte do mundo facilmente.

“Há muita estrada até a recuperação do país”, afirmou Finnur Olguson, 25 anos, estudante de marcenaria na Escola Técnica de Reykjavik. Olguson disse que ele e boa parte dos islandeses querem ver maiores mudanças políticas e econômicas. “Quero maior controle do Estado sobre o sistema bancário e medidas para limitar o poder dos ricos, os quais estão saindo dessa crise ainda numa boa situação.”

Na opinião de Sunna Ingólfsdóttir, o fosso entre ricos e pobres na Islândia ampliou-se ao longo dos últimos três anos. “Pessoas ricas sem dívidas perderam algum dinheiro, mas os pobres que já estavam endividados viram suas dívidas crescerem e perderam muito mais”, disse Sunna, 26 anos, que trabalha num café no centro da cidade por não encontrar emprego como antropóloga.