Garantir a manutenção do solo e alterá-lo o mínimo possível é o objetivo de uma modalidade de produção rural conhecida como agricultura conservacionista. Em franco crescimento, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo, se pauta por três princípios: produção com a manutenção de cobertura no solo; minimização da mobilidade do solo com a utilização de máquinas; e rotação de culturas.

De acordo com o pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) Augusto Guilherme de Araújo, em mais da metade das terras brasileiras onde são produzidos grãos, principalmente soja e milho, é aplicada a agricultura conservacionista. “A safra de grãos 2008/2009 será cultivada em 47 milhões de hectares. Pelo menos 25 milhões são nas áreas adeptas desse método. No Paraná, não há uma contagem oficial, mas nossa estimativa é que mais de 80% das áreas plantadas sejam de agricultura conservacionista”, revela. Guilherme de Araújo informa que são vários os benefícios nas terras que utilizam essa técnica. “O solo fica mais fértil, há uma diminuição considerável do risco de erosão e de doenças, um equilíbrio maior nos nutrientes, melhor retenção de umidade, entre outros”, menciona.

O pesquisador lembra que a agricultura sofre atualmente a pressão pelo aumento da demanda de alimentos e o sistema convencional costuma ser muito agressivo ao meio ambiente. “Com o conservacionismo, o produtor pode ter uma produção melhor e ainda poupa a natureza”, explica. Assim, a sociedade como um todo se beneficiaria, já que a alternativa implica em jogar menos carbono na atmosfera e economiza recursos hídricos.

Histórico

A agricultura conservacionista não é exatamente uma novidade. O pesquisador conta que as primeiras experiências surgiram há mais ou menos 60 anos, na Europa e América do Norte. No Brasil, um dos estados pioneiros é o Paraná, que começou os trabalhos em 1971, no município de Rolândia, norte do Estado. “As primeiras experiências não foram moleza para os produtores. Havia muita dificuldade e pouca tecnologia. Os pioneiros tiveram mérito por insistir nessa produção e por terem visão para perceber que essa seria a tendência da agricultura no futuro”, diz.

Foi somente na década de 90 que a agricultura conservacionista conquistou de vez os produtores rurais. “Até o final da década de 80, a gente ainda tinha pouco conhecimento. Na década seguinte houve esse boom, porque o acesso às técnicas e máquinas utilizadas para esse propósito tornou-se mais fácil e as pessoas passaram a seguir essa tendência, que encontrou forte respaldo principalmente nas lavouras de grãos”, afirma.

Custo com adaptações tem retorno certo

Para tornar-se um agricultor conservacionista, adaptações são necessárias. O pesquisador do Iapar Augusto Guilherme de Araújo diz que há necessidade de fazer operações de nivelamento, correções dos nutrientes do solo, aplicação correta da cobertura da terra, entre outras. “Tudo isso vai gerar um custo para o agricultor. Entretanto, ele recupera esse investimento em poucos anos”, garante. Recentemente, o pesquisador participou de um congresso em Nova Délhi, na Índia, que contou com o apoio da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Ele relata que o Brasil já é uma referência mundial nesse assunto e que serve como exemplo para outros países, principalmente da Ásia e África. “Diversos palestrantes elogiaram o País. Enquanto muitos ainda estão aprendendo o que é a agricultura conservacionista, n&o,acute;s já estamos dois passos à frente, discutindo problemas mais complexos. O Iapar também foi citado como exemplo positivo por desenvolver pesquisas voltadas para essa linha”, encerra.

Produtor ganha em qualidade

O agricultor Elídio Variani, do município de Medianeira, no oeste do Paraná, é um dos vários produtores rurais que migraram da agricultura convencional para a conservacionista. Desde 1996, Variani segue as orientações do Iapar. A alternativa, para ele, se revelou interessante tanto no aspecto econômico como no de preservação do meio ambiente. De acordo com o produtor rural, a plantação aumentou em termos de qualidade nesses 13 anos. “A gente percebe que o solo está saudável, a água tem bom escoamento, existe uma boa umidade e não há problemas relacionados às ervas daninhas. Além disso, há um desgaste menor do maquinário”, revela. Variani diz também que os técnicos que monitoram a lavoura estão impressionados com a qualidade da produção. “A gente promove um dia do campo. Nesse dia, técnicos e compradores visitam nossa plantação para conhecer melhor o produto. Felizmente, nossa avaliação tem sido ótima. Ficamos satisfeitos em aumentar a produtividade com qualidade e garantir um cuidado com o solo e com o meio ambiente”, fala.