Empresas instaladas no pólo
tecnológico geram 400
empregos diretos.

A cidade de Pato Branco, no Sudoeste do Paraná, célebre pela agropecuária – especialmente suinocultura – está se destacando como pólo produtor de tecnologia de ponta em informática e telecomunicações. Além de óbvios reflexos sobre o aumento da riqueza, esta transformação provoca mudanças profundas nos aspectos sociais e culturais do município e da região.

O salto da cidade se traduz em números. Entre 1995 e 1999, a taxa média anual de crescimento do valor adicionado grandeza que mede a quantidade de bens e serviços produzidos no município era de 14,2%. Entre 1999 e 2000, a taxa dobrou. Foi de 28%.

Outro dado revelador é a expansão dos repasses do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) para Pato Branco. Em 1995, o município recebeu R$ 2,8 milhões do Estado a título de cota parte do tributo. Em 1999, recebeu R$ 4,3 milhões. Em 2000, R$ 5,3 milhões. Isso significa que a taxa de crescimento dos repasses também dobrou: de 11% ao ano, entre 1995 e 1999, para 22%, entre 1999 e 2000.

As receitas obtidas pelo Estado com o recolhimento do ICMS gerado pelas empresas localizadas na cidade dão outra medida da sua expansão econômica. Em 1995, o Tesouro Estadual recolheu R$ 12,5 milhões em Pato Branco. Em 2001, o valor passou para R$ 18,7 milhões, o que significa um aumento de 50% em seis anos.

A causa desta transformação atende pelo nome de Centro Tecnológico e Industrial do Sudoeste (Cetis). Sociedade civil de direito privado, sem fins lucrativos, o Cetis tem por objetivo promover o desenvolvimento da região, fomentando a criação de empresas de tecnologia de ponta, especialmente na área eletro-eletrônica.

Este apoio à produção assumiu dimensão prática em 1999, quando o Governo do Estado inaugurou a infra-estrutura logística do Cetis. Trata-se de um condomínio industrial formado por seis barracões, bloco administrativo e laboratórios, totalizando 7,5 mil metros quadrados de área construída, numa área total de 38 mil metros quadrados.

“É um conjunto de facilidades que vão de máquinas e equipamentos de uso comum ao desenvolvimento de tecnologia”, explica Henrique José Ternes Neto, diretor superintendente do Instituto de Tecnologia para o Desenvolvimento (Lactec). Dono de 85% das cotas, o Lactec compartilha a sociedade do Cetis com a Companhia Paranaense de Energia (Copel), proprietária dos outros15%.

A proposta do Centro, esclarece Ternes Neto, é apoiar a criação e o funcionamento da pequena e média empresa de base tecnológica. “Os critérios para aceitação de um candidato a se instalar no local são a capacidade de mercado e a vinculação do novo negócio à inovação tecnológica”. Os prédios e galpões são locados aos empresários interessados. O aluguel é de R$ 2.500,00 mensais.

Em 1999, cinco empresas se instalaram no local: Hosonic, Meta Vision, Green Lights, Relm Chatral e CPM. Elas geram 400 empregos diretos e guardam relação direta com o crescimento e desenvolvimento de Pato Branco e Região.

O faturamento obtido pelo conjunto das cinco empresas chegou a R$ 50 milhões no ano passado. Um valor expressivo para um município que, em 2000 – último ano com dados disponíveis – gerou um valor adicionado de R$ 245,8 milhões.

União – A transformação de Pato Branco em pólo produtor de tecnologia de última geração em eletro-eletrônica não foi obra do acaso. Surgiu da comunhão de interesses entre o Governo do Estado, a administração municipal (à época), entidades de apoio à micro e pequena empresa, como o Sebrae, e o empresariado local.

Metas foram fixadas para orientar o desenvolvimento regional. “Até 2010 Pato Branco quer ser um grande centro de inovação nas áreas de tecnologia da informação e comunicação”, conta Claynor Mazzarolo, diretor presidente da Pato Branco Tecnópole, uma ONG sem fins lucrativos que pode ser tomada como um dos símbolos da transformação que tem palco no Sudoeste paranaense.

Mazzarolo, à frente de uma entidade que funciona como catalisadora dos múltiplos interesses da cidade, revela que faz parte dos planos da sociedade pato-branquense, entre outras metas, elevar a renda municipal ao equivalente a três vezes a nacional; ultrapassar a quantidade de 40 cursos de nível superior até 2003 e ter 15 mil alunos matriculados em cursos universitários até 2005.

Mão-de-obra qualificada

Pato Branco possui um diferencial importante: a unidade do Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná (Cefet-PR). Reconhecido nacionalmente pela competência na formação de mão-de-obra altamente qualificada, ele é o principal fornecedor de cérebros e braços para o pólo eletro-eletrônico. Jovens que deixavam Pato Branco após a formatura em busca de oportunidades de trabalho nas suas áreas de formação, agora podem empregar-se na própria cidade.

Além de absorver parte da mão-de-obra formada pelo Cefet local, o Cetis permitiu o renascimento de anseios adormecidos. Foi o que aconteceu com a Meta Vision. Devido às condições desfavoráveis do mercado, fazia três anos que as atividades da empresa estavam paradas em Chapecó (SC), sua cidade de origem.

“Foi aí que nós ouvimos falar do Cetis. Conversamos com o prefeito de Pato Branco na época (o ex-secretário chefe da Casa Civil do Governo do Estado, Alceni Guerra) e o pessoal do Lactec e trouxemos a empresa para cá”, conta o seu proprietário, Juarez Larini.

Devidamente instalada em um dos barracões do Cetis, a empresa retomou a produção em outubro de 2000. O carro-chefe é novidade no mercado, garante Larini: batizada de Dog Light, a peça monitora o consumo de energia elétrica. Seu maior consumidor é o Lactec, que fornece o equipamento à Copel.

A aposta de Larini deu certo. Atualmente, a Meta Vision emprega 52 funcionários. Tem clientes em vários Estados, como Goiás e Tocantins. O faturamento anual está na casa dos R$ 2 milhões. E deve aumentar. Estão adiantados os planos para exportação.

A consolidação do pólo eletro-eletrônico de Pato Branco, contudo, não se restringiu às empresas instaladas no Cetis. Centenas de outros negócios surgiram no seu entorno, beneficiando-se da proximidade com os fornecedores de matérias-primas instalados no Centro. Ou fechando contratos de venda com estas empresas.

Um exemplo é a Xpert Brazil, empresa especializada em software e hardware de automação. Antes do Cetis, o cristal oscilador, peça essencial para a fabricação de controladores lógicos programáveis, era adquirido no exterior. Cotado em dólar, ele era comprado a um preço que, hoje, chegaria a R$ 7,00.

A inauguração do Cetis significou economia para a Xpert Brazil, que emprega 17 funcionários e gera outros cem empregos indiretos. O cristal oscilador passou a ser produzido pela Hosonic integrante do condomínio industrial – a um preço de R$ 0,80. Isso significa dizer que o custo caiu 89%. “Hoje está muito mais fácil negociar e receber as peças”, festeja Gilberto Galina, diretor da Xpert.

Expansão comercial e no ensino superior

Os efeitos da evolução econômica de Pato Branco, no entanto, vão muito além do Cetis. “Houve uma mudança de mentalidade, uma mudança de paradigma”, observa o deputado federal e ex-secretário chefe da Casa Civil do Governo Jaime Lerner, Alceni Guerra. “Pato Branco deixou de ser uma economia essencialmente agrícola e se integrou na nova economia”.

Guerra prevê que, em pouco tempo, a Região Sudoeste do Paraná se consolidará como sede de call centers, empresas em que convergem as tecnologias de informática e telecomunicações. “Estará inserida no mundo globalizado de forma ativa.”

De olho nas imensas oportunidades que se abrem na região, grupos privados passaram a investir no ensino superior. A cidade, que antes possuía apenas cinco cursos de nível universitário – oferecidos pelo Cefet – hoje tem 35. À instituição federal somaram-se duas faculdades privadas: a Mater Dei e a Fadep. De um curso voltado para a informática, Pato Branco passou a ter três.

O comércio é outro termômetro da efervescência que varre a região. “A movimentação financeira na cidade aumentou. Ela se reflete em todos os setores, do posto de gasolina ao hotel e ao restaurante”, atesta Júlio César Lappmann, presidente da Associação Comercial e Industrial de Pato Branco.

Com uma ponta de orgulho, Lappmann revela que a cidade já se tornou referência como centro de tecnologia. Há um sentimento generalizado entre os habitantes de que, a partir da instalação do Cetis, a cidade passou a ter um rumo. “As pessoas passaram a buscar alternativas de renda e os empresários viram surgir novas oportunidades de negócios”.

Pólo ganha nova unidade

Se depender do interesse demonstrado pelo empresariado, o ciclo de crescimento continuará. E os novos investidores encontrarão na cidade as mesmas facilidades que os primeiros inquilinos do Cetis. Egon Paulo Grams, gerente do Centro, informa que um novo barracão, de 550 metros quadrados, será entregue em 90 dias.

O imóvel, no qual estão sendo investidos R$ 5 milhões, é chamado, tecnicamente, de “módulo de prototipação”. Ele abrigará máquinas e equipamentos de última geração, como as injetoras de plástico e alumínio importadas do Japão. Elas tornarão possível o desenvolvimento de protótipos no próprio Cetis, uma tarefa que vinha sendo delegada a empresas de fora, especialmente de Santa Catarina.

Além de oferecer um apoio essencial para as empresas já instaladas no Centro, o módulo de prototipação prestará auxílio aos projetos desenvolvidos pelos estudantes instalados no Hotel Tecnológico. Trata-se de mais um estímulo aos futuros empresários de Pato Branco. Henrique José Ternes Neto, do Lactec, diz que há 15 empresas na fila, aguardando a oportunidade de se instalar no Cetis.