São Paulo (AE) – A queda dos preços dos alimentos, principalmente de produtos da cesta básica, ajudou a derrubar a inflação e o faturamento dos supermercados este ano. ?O consumidor sem dúvida foi beneficiado, mas as vendas ficaram aquém do esperado?, diz o presidente da Associação Brasileira dos Supermercados (Abras), João Carlos de Oliveira. ?Foi novamente, como em 2005, um ano ruim.?

As perdas acumuladas de janeiro de 2003 até novembro deste ano chegam a 2%. ?Pode parecer pouco, mas para um setor que deve fechar o ano com vendas em torno de R$ 110 bilhões é uma redução significativa?, diz.

Só no acumulado até novembro de 2006 o resultado do setor, descontada a inflação no período, está 1,79% abaixo do mesmo período do ano passado, enquanto o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística acumula alta de 2,65%. ?Se dezembro for muito bem fechamos 2006 empatados com 2005?, prevê Oliveira. Durante todo este ano, na comparação de um mês com o mesmo mês em 2005, os resultados são negativos, com exceção de abril, setembro e novembro. A cesta AbrasMercado composta por 35 produtos de largo consumo, incluindo alimentos, produtos de higiene, beleza e limpeza doméstica, no mês passado custava R$ 198,61, ante R$ 198,05, em dezembro do ano passado.

Mesmo com a queda dos preços dos alimentos, o volume de vendas não cresceu o suficiente para compensar essa perda. ?O consumidor passou o ano preocupado em pagar o crediário e teve menos renda disponível para gastar com alimentos, mesmo com preços convidativos?, diz o vice-presidente da Associação Paulista dos Supermercados (Apas), Martinho Paiva Moreira.

O arroz, por exemplo, virou uma das estrelas da campanha eleitoral governista. Lula citava nos discurso que o arroz Tio João (pacote de 5 quilos) que custava R$ 13 em 2003, início de seu mandato, estava por R$ 5,90. Por uma série de fatores favoráveis, de safra, oferta e câmbio , os produtos da cesta básica acumularam quedas nos últimos três anos. Segundo a Abras, o preço do arroz caiu 33%, do óleo de soja 32% e o do feijão 7,9%.

Essa situação favorável dificilmente se repetirá em 2007, na avaliação do setor. ?Já se nota uma recuperação dos preços da commodities. Mesmo se os preços dos alimentos permanecerem baixos estaremos longe do que foi 2006?, diz Oliveira. Para os supermercados, acredita, o ano será melhor. ?Apesar de uma estimativa de crescimento de apenas 3,8% do Produto Interno Bruto, teremos juros mais baixos e o governo promete dar prioridade à reforma tributária, o que talvez tenha reflexos no segundo semestre?, diz.

Mais pessimista, o economista da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP), Nelson Barrizelli, não vê uma mudança de cenário para os supermercados. ?É difícil uma recuperação de preços porque falta renda para o consumidor, que tem migrado nos últimos anos dos produtos mais caros para os mais baratos?, diz. Pode haver pressão, observa, pela necessidade que as empresas têm de repor margens, mas o limite é a aceitação do consumidor.

?A situação nos últimos seis anos continua invariável. Há um aumento de volume de vendas e queda de preços?, afirma. Ele cita como exemplo o caso da chamada mercearia seca (alimentos industrializados e cereais) com queda de vendas de 12% e aumento de volume de 3% em 2005 comparado a 2004. ?Os números de 2006 ainda não foram fechados, mas a tendência é a mesma.?

Para o assessor econômico da Federação do Comércio do Estado de São Paulo, Altamiro Carvalho, em 2007 não deverá haver pressão de preços dos alimentos, nenhum choque de oferta, mas o crescimento da renda ainda será modesto, algo em torno de 2% a 3%. Mas ele pondera que o consumidor está muito endividado, preocupado em entrar em novos financiamentos e possivelmente deverá redirecionar seus gastos mais para alimentos, beneficiando os supermercados.