Foto: Sérgio Bogoni/Gazeta de Toledo

 Os 635 animais que participaram da exposição em Toledo foram interditados por medida de precaução. Cinco deles vieram do MS.

O Paraná pode ter confirmado na próxima segunda-feira os primeiros casos de febre aftosa. O secretário da Agricultura e Abastecimento, Orlando Pessuti, anunciou no final da tarde de ontem que 19 cabeças de gado, distribuídas em quatro propriedades nas regiões oeste e norte, apresentam os sintomas da enfermidade: febre, salivação excessiva e andar manco. Foi colhido sangue e o soro já está sendo enviado ao laboratório do Ministério da Agricultura, em Recife-PE, para o diagnóstico conclusivo.

Destes animais, três estão em Loanda, três em Amaporã, um em Maringá e doze em Grandes Rios. Os proprietários das quatro fazendas, que somam no total 5.100 cabeças de gado, estiveram presentes na Eurozebu, feira agropecuária que aconteceu em Londrina de primeiro a 9 de outubro, com a presença de 43 cabeças de gado provenientes do Mato Grosso do Sul.

Conforme a nota técnica da Secretaria de Agricultura, todas as quatro propriedades estão com a vacinação em dia junto ao serviço oficial. ?Os animais entraram no Paraná no dia 24 de setembro e foram levados a uma propriedade no município de Bela Vista do Paraíso, próximo a Londrina, de onde saíram para o leilão?, diz a nota.

?Fomos informados do primeiro foco no Mato Grosso do Sul às 9h30 do dia 10, quando a feira já havia acabado. No mesmo momento, rastreamos todas as 40 propriedades que receberam gado daquele estado?, garantiu Pessuti. Além do rastreamento, a secretaria redobrou serviços na fronteira, com barreiras sanitárias volantes e instalação de medidas restritivas, inclusive com veto à entrada de produtos vegetais originários do estado vizinho. ?Tomamos todas as medidas cabíveis para evitar a contaminação?.

Como precaução, a secretaria da Agricultura interditou 635 cabeças de gado que participaram de um leilão na cidade de Toledo. Dentre esses animais, cinco são provenientes do Mato Grosso do Sul e seguem sob observação. Como a transmissão da aftosa se dá mediante a saliva dos animais, qualquer contato pode ser fatal.

Tão logo recebeu o comunicado do Paraná, a Secretaria de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura avisou a Organização Mundial de Saúde (OIE), o Centro Pan-Americano de Febre Aftosa (Panaftosa) e os países com os quais o Brasil mantém relações comerciais.

Apesar de ainda não haver a confirmação dos casos, o secretário, de antemão, prevê prejuízos para a economia do Estado, com argumentos provenientes de experiências anteriores. ?Quando a febre aftosa atingiu o Pará, o Amazonas e o Rio Grande do Sul, sofremos restrições. Antes mesmo dessas suspeitas serem levantadas, já tomamos conhecimento da restrição de 41 países à carne brasileira?, lamentou o secretário.

O deputado federal Abelardo Lupion (PFL), da bancada ruralista, criticou a falta de recursos disponibilizados pelo Ministério da Fazenda à imunização do gado. ?Havíamos denunciado essa falha. Agora, o que nos resta é lutar para que, se confirmado, o problema não se alastre, com barreiras eficientes?. Como dono de fazenda, ele aconselha que os proprietários também tomem providências, realizando o pedilúvio e pulverizando os veículos que entram nas propriedades. ?Antecipar a vacinação também é fundamental, mesmo que o governo do estado esteja comprometido em cumprir o seu papel?.

Santa Catarina

Como reflexo da suspeita sob o gado paranaense, o governo de Santa Catarina bloqueou novamente a passagem de todos os produtos e derivados de origem animal, grãos e frutos provenientes do Paraná. Na última terça-feira, o governo catarinense havia flexibilizado o bloqueio inicial, feito tão logo veio a público a informação de contaminação do gado no Mato Grosso do Sul. Até ontem, ainda havia sido permitido o ingresso de carne bovina maturada e desossada e carne derivada de aves e suínos do Paraná. O governo catarinense impede, desde 2000, a entrada no estado de animais vivos suscetíveis á febre aftosa.

Suspeita deixa produtores do Estado em alerta

Lyrian Saiki

A suspeita de foco da febre aftosa em animais de quatro propriedades rurais do Paraná deixou toda a cadeia produtiva em estado de alerta. Para o assessor de pecuária da Federação da Agricultura no Estado do Paraná (Faep), Alexandre Jacewicz, a suspeita ?preocupa muito?. ?Quando se tem um foco, ou vários, do outro lado do rio (no caso o Rio Paraná, que divide o Paraná do Mato Grosso do Sul), há sempre a possibilidade de passar o vírus. Isso preocupa muito?, disse o assessor, acrescentando que prefere aguardar a confirmação laboratorial. ?Por enquanto, são só suspeitas, lesões, sintomas clínicos.?

O assessor econômico do Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados no Paraná (Sindicarnes-PR), Gustavo Fanaya, afirmou que também prefere comentar os efeitos dos possíveis focos de aftosa, depois de confirmados. ?O que é preciso agora é responsabilidade, serenidade. Se confirmado o exame sorológico, daí sim as ações precisarão ser tomadas, entre elas o trabalho conjunto com o governo do Estado para minimizar o problema?, falou.

De janeiro a setembro, o Paraná exportou cerca de 31 mil toneladas de carne bovina representando US$ 67,3 milhões. Desse total, a União Européia – que já embargou o ingresso de carne do Paraná – respondeu por 24% em volume e 38% em faturamento. Para este ano, a projeção seria de 42 mil toneladas exportadas, podendo chegar a 45 mil, com faturamento previsto de US$ 90 milhões a US$ 95 milhões. Além da União Européia, anunciaram a suspensão da compra de carne do Paraná a Ucrânia, Noruega, Peru, Uruguai, África do Sul, entre outros.

Fundepec

Caso os focos de aftosa no Paraná sejam confirmados, recursos do Fundo de Desenvolvimento da Agropecuária no Paraná (Fundepec-PR) poderão ser acionados. O fundo emergencial de combate à aftosa foi constituído em 1995 por 11 entidades privadas. ?Quando o Paraná ?perdeu o bonde? de conseguir o certificado de livre com vacinação, a exemplo de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, os produtores se articularam. A partir daí, houve uma reação que culminou com a certificação internacional em 2000?, explicou Alexandre Jacewicz, da Faep.

Em 2001 e 2002, foram arrecadados R$ 0,25 por cabeça de gado. O valor, que somava R$ 8 milhões na época, foi aplicado no mercado de capitais. Em agosto último, conforme balanço divulgado no site da Faep, o valor chegava a R$ 18,9 milhões. O último caso de febre aftosa no Paraná ocorreu em maio de 95, na região de Umuarama. Na época, cerca de 600 animais foram sacrificados.

Ministério da Agricultura confirma outros cinco focos do vírus no MS

Brasília (AE) – Mais cinco focos de febre aftosa foram confirmados ontem pelo Ministério da Agricultura: quatro em Japorã e um em Novo Mundo, todos dentro da área isolada pelo governo desde o início da crise. Mais preocupante que isso, porém, foi o anúncio de que há suspeitas de casos no Paraná. Se confirmados, eles mostrarão que a doença não ficou restrita a uma só área, como é a situação até agora.

O anúncio dos novos focos ocorreu um dia depois de o secretário de Defesa Agropecuária, Gabriel Alves Maciel, haver negado que havia investigação sobre novos focos. O governador de Mato Grosso do Sul, José Orcírio dos Santos, o Zeca do PT, também havia descartado a existência de novos casos no estado. Fizeram coro ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, na segunda-feira, havia afirmado que o único foco de aftosa no País já tinha sido debelado.

De acordo com o ministério, os novos focos estão localizados nas seguintes propriedades: Sítio Boa Vista, Fazenda Guatambu, Lote 205 PA Savana e Sítio São Benedito II (todos em Japorã) e Fazenda Gazin, em Mundo Novo, na divisa com Japorã. Com o anúncio de hoje, sobe para dez o número total de focos oficialmente confirmados da doença: dois em Eldorado, sete em Japorã e um em Novo Mundo. Todos fazem parte da área chamada ?zona tampão?, que é um raio de 25 quilômetros em torno do primeiro foco. São cinco os municípios nessa área: Eldorado, Japorã, Novo Mundo, Iguatemi e Itaquiraí.

As propriedades onde foram confirmados os novos focos são de pequeno tamanho. No Sítio Boa Vista, o rebanho é de 53 bovinos, dos quais três estão doentes. Na Fazenda Guatambu, com 253 bovinos, 16 apresentaram sintomas clínicos de febre aftosa. No Lote 205 PA Savana, dos 16 bovinos da propriedade dois estão doentes. No sítio São Benedito II, com rebanho de 142 bovinos, 20 apresentaram sinais clínicos da doença. Na Fazenda Gazin, de um total de 77 bovinos, cinco estão com a doença. ?O rebanho total a ser sacrificado desde a primeira confirmação, por meio de exame laboratorial, é de 6.469 animais? informou o governo.

Apesar da confirmação de novos focos de febre aftosa no Mato Grosso do Sul, o Ministério da Agricultura minimizou o registro. ?A doença mantém-se limitada ao raio de 25 quilômetros estabelecido no entorno dos focos e considerado área de segurança?, ressaltaram técnicos do Departamento de Saúde Animal. A fazenda Vezozzo, onde surgiu o primeiro foco, tinha rebanho de 584 bovinos. Eles foram sacrificados e agora a propriedade cumpre fase de vazio sanitário (sem presença de bovinos por 30 dias) e a fazenda Jangada, com 3.548 animais, está em fase de avaliação e abate do rebanho. Do total de animais dessa fazenda, 300 já foram sacrificados.

Os casos divulgados ontem foram confirmados por meio de exame clínico epidemiológico, por análise dos sinais clínicos. Na área de vigilância (dez quilômetros a partir dos focos) existem aproximadamente 400 propriedades com cerca de 14 mil bovinos, o que dá uma média de 35 animais por fazenda. O clima chuvoso dificulta o sacrifício dos animais. Até agora, em toda a área interditada, foram inspecionadas 924 fazendas, que tem um total de 122.578 bovinos, 3.230 ruminantes, cabras e ovelhas e 2.713 suínos.

Lula defende vacinação unificada

Brasília (AE) – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai propor aos demais presidentes sul-americanos, durante a próxima Cúpula do Mercosul, duas medidas para que os países vizinhos possam enfrentar o problema da febre aftosa. A primeira medida é a definição de uma data única de vacinação dos rebanhos bovinos. A segunda medida será a realização de uma campanha sistemática de combate à febre aftosa para erradicar a doença do continente no período de até dez anos.

?Temos de colocar este assunto na próxima cúpula do Mercosul. Vamos discutir uma campanha nos moldes da vacinação da poliomielite para erradicar da América do Sul a febre aftosa?, disse Lula, conforme relato da fonte que presenciou uma conversa ontem pela manhã, com o vice-presidente José Alencar e os presidentes do Supremo Tribunal Federal, Nelson Jobim, e do Senado, Renan Calheiros.

Nessa conversa, Lula deixou claro que o governo só indenizará os produtores que vacinaram o gado que foi sacrificado. Segundo esse interlocutor, Lula observou que a exigência da vacinação consta de uma lei do governo do presidente Eurico Gaspar Dutra. ?Isso foi para incentivar os produtores, na época, a ajudar no combate à aftosa?, teria explicado Lula a Renan e Jobim, segundo a fonte. A próxima reunião da cúpula do Mercosul está marcada para os dias 8 e 9 de dezembro em Montevidéu. O presidente Lula também pretende discutir o assunto na Cúpula das Américas no próximo mês, na Argentina.

O presidente Lula ouviu relato de um especialista na criação de gado no Sul do País que fez uma defesa do Paraguai, país de onde a doença teria vindo. Este especialista disse ao presidente que há vacinação no país vizinho, e que o Paraguai não deve ficar com toda a culpa pelo aparecimento do foco de febre aftosa. Ele observou que, desde o início da crise, não surgiram focos no lado paraguaio da fronteira.

Liminar suspende abates em Eldorado

Eldorado (AE) – O juiz substituto da Vara Única de Eldorado, Alexandre Tsuyoshi Ito, concedeu liminar que suspende a operação de abate dos 4 mil animais da Fazenda Jangada, localizada no município de Eldorado, sul do Mato Grosso do Sul. A medida cautelar foi impetrada pela proprietária da fazenda, Lenice Magalhões Meda Turquino. Pela decisão judicial, o juiz vetou três dos sete pedidos que constavam da medida cautelar, distribuída no último dia 19. A Justiça determinou que a Agência Estadual de Defesa Animal e Vegetal (Iagro), órgão responsável pelas operações para sanidade animal do Mato Grosso do Sul, faça a ?autuação, motivação da necessidade, avaliação prévia e indenização prévia e justa? ao proprietário.

O juízo entendeu que estas prerrogativas estão previstas na Lei 1.953/99 e regulamentada pelo decreto 10.028/2000. No despacho do juiz não foram acolhidos o pedido da proprietária da fazenda para indicação de um veterinário para avaliação, dos exames sorológicos em cada um dos animais para saber se são hospedeiros do vírus e a proposta de ?abate sanitário?, que seria feito em frigorífico.

A família afirma que o abate em frigorífico produziria cerca de 400 toneladas de carne que poderiam gerar parte dos recursos para a indenização. ?Este pedido em sucessividade alternativa se faz para evitar o desperdício de carnes sadias para consumo humano e ainda sem prejuízo da integral indenização pelo preço do gado em pé que apurar a comissão nomeada?, solicitou a proprietária da fazenda. O pedido foi indeferido.

O Iagro deverá recorrer da decisão, mas de qualquer forma a liminar é mais um obstáculo ao plano de zerar o número de animais infectados ou supostamente contaminados na região. O Ministério da Agricultura não comentou a decisão.