Com a economia crescendo, o Brasil corre o risco de sofrer um novo apagão. Dessa vez, a falta será de talentos. É o que o headhunter Alfredo José Assumpção, das empresas Fesa e Asap, já observa no País. Ele, que está lançando seu oitavo livro, ‘Felicidade, o Deus nosso de cada dia – como, quando e onde encontrá-Lo’, esteve em Curitiba na última semana, e conversou sobre esse novo risco para o crescimento do Brasil.

OE: Com o Brasil sendo considerado uma das bolas da vez, teremos estrutura humana para atender a tanto investimento?

Alfredo José Assumpção: Não. É esse o problema. Em 2008, se falava de apagão de infraestrutura e eu já falava de apagão de talentos. A crise nos deu tempo de refazer muita coisa. E é importante que o empresário tenha se preparado para esse momento, porque vamos continuar crescendo. Não vai ter mão-de-obra suficiente e vai haver um leilão muito forte. Vão disparar os salários e os bônus, o Custo Brasil vai aumentar, mas vamos continuar crescendo. Vamos ter condições de repatriar os 5 milhões de brasileiros que estão espalhados pelo mundo, além de muitos estrangeiros que chegarão para trabalhar.

OE: Já é evidente o apagão de talentos em algumas áreas, principalmente em engenharias, não?

AJA: É notório. A área de infraestrutura vai pegar fogo, já que o Brasil precisa refazer tudo: portos, estradas, aeroportos. Tudo isso vai precisar de manutenção, ser atualizado. Tem Copa do Mundo e Olimpíada vindo, com exigências mil. Dentre os países emergentes, o tal do Bric, somos o “bichinho de estimação”. É muito mais interessante investir aqui, já que temos estabilidade política e econômica.

OE: Que características faltam aos nossos executivos?

AJA: Quando se fala de plano técnico, no exemplo da engenharia, quero alguém que entenda daquilo especificamente. Quando se sobe o nível para executivos, dificilmente se encontra alguém que tecnicamente tenha o que quero. Busco muito mais atitude: uma pessoa pronta para entrar em uma instituição, servir, trabalhar em equipe e aprender a empresa. Prefiro buscar mais atitude que tecnicismo. Não adianta um cara muito técnico, que conheça o assunto profundamente, mas que não saiba conviver com as pessoas. Eu quero time, todo mundo junto, não estrelismo.

OE: O técnico Dunga levou isso em conta na convocação da Seleção Brasileira, esta semana…

AJA: Sim, ele recusou colocar estrelas no time. O Bernardinho também fez isso, cortou o levantador que era a estrela. Ele queria uma constelação, um brilho por igual, todo mundo junto, para aí ganhar o jogo. No mundo executivo isso se repete. É o “teamworking”: eu te sirvo na minha capacidade máxima, você me serve na sua, e fazemos uma boa dupla. É uma consciência que vem da condição planetária. Até uma folhinha que cai vai servir para algum propósito. E nós temos que servir também. Isso começou a tomar corpo nesse novo século, e a crise até ajudou, com a elite mundial repensando tudo, falando em coisas como sustentabilidade.

OE: Hoje vemos muitas pessoas com diploma universitário que mal conseguem escrever ou interpretar um texto mais complexo. Como caçar talentos nesse universo?

AJA: É difícil, mesmo com muita gente desempregada. Estou buscando talento, qualidade, não quantidade. Ainda temos uma formação de submundo no Brasil, embora tenhamos escolas de ponta muito boas. Então, os bem educados e formados vão conseguir lugar fácil, mas para os outros vai ser difícil. Embora, se há atitude, não me preocuparei muito em que escola você se formou. É preciso saber escrever, no mínimo, e saber inglês. E estar com a mala pronta para sair daqui a qualquer momento. O pessoal mal formado vai ter que reciclar. Ou faz isso por si mesmo ou entra em uma empresa que vai fazer esse trabalho, apostar nesse talento e o treinar. Não tem outra saída. É o “ruim com ele, pior sem ele”.

OE: Mas por que isso ,acontece?

AJA: A economia é cada vez mais complexa, o mundo é muito rápido. E depois de uma crise vêm mudanças dramáticas, e é preciso um capital humano diferenciado. Mas o mundo acadêmico não tem a velocidade de formação que as empresas precisam. Elas vão ter que formar sua própria mão-de-obra. Pegar gente do mundo acadêmico, que pelo menos saiba escrever, e formar dentro de casa. Daí os programas de trainées, que vão ter que ser muito acelerados, para assim termos gente pronta daqui a dois anos.

OE: O senhor falou em leilão de mão-de-obra no País. Como isso acontecerá? Não há risco de uma inflação de salários?

AJA: Sempre vai ter ajustes, mas vai acontecer. Há 30 anos, se movimentava US$ 1 bilhão em honorários para consultores recrutarem gente. Em 2008, foram US$ 12 bilhões. Houve uma queda na crise em 2009, para US$ 7,5 bilhões. E eu acredito que nos próximos três anos vá para US$ 15 bilhões. A empresa inteligente será aquela que ganhará a guerra por talentos, e isso vai ser constante. Sem talento eu não sobrevivo, e eu preciso recrutar no mundo todo. E se não estiver atento, perco para o mercado, e se alguém recrutar meus talentos eu fecho as portas, sou comprado, fusionado. Isso vai acontecer muito, ainda mais agora que Europa, Estados Unidos e Ásia voltam a crescer.

OE: Houve muita fuga de talentos brasileiros para o exterior? Há como recuperarmos ao menos parte desse efetivo?

AJA: Sem dúvida houve, ou para buscar salários melhores, ou porque a empresa se tornou multinacional. Com o Brasil crescendo e tendo uma moeda muito próxima ao dólar, já temos recebido muitos currículos de brasileiros querendo voltar. É natural, vai e volta de acordo com a economia. Recebemos também currículos de estrangeiros, acostumados a trabalhar em âmbito global. É o executivo de mala pronta, que está pronto para mudar para qualquer lugar.

OE: E as empresas brasileiras estão prontas para contratar executivos estrangeiros, ou ainda são muito fechadas para isso?

AJA: Ainda estão fechadas, vão ter que se abrir. Pensam que encontram por aqui mesmo, que estrangeiro é mais caro, que vai ser difícil para eles se adaptarem à nossa cultura. Tem realmente um processo de adaptação difícil. Mas o executivo que quer vir para cá já tem visão, experiência e exposição em países diferentes, e se ajusta rapidamente. O empresariado brasileiro vai ter que descobrir isso. Vai chegar uma hora em que ele vai procurar no Brasil e ver que não tem aqui.

OE: Há como recuperar o tempo perdido a curto prazo, ou só a longo? Qual a solução?

AJA: A curto prazo são dois anos, pelo menos. Temos que acelerar dramaticamente a educação. Pagar bem os professores, para não termos só acadêmicos, mas também práticos dando aula. Precisamos de escolas de negócios fortes, poderosas. Mas isso é só um alívio imediato. É preciso consciência nas empresas de que são elas que têm que preparar. Porque não existe como o mundo acadêmico preparar na velocidade demandada pelo mundo corporativo. As empresas precisam ter grandes planejadores, pensadores da melhor forma possível de usar o capital humano, como atrair, reter, desenvolver, motivar, deixar felicidade no ambiente corporativo. Senão não crescem.

OE: É essa felicidade o tema do seu livro?

AJA: Ele fecha uma trilogia, com o conceito de que você é feliz quando é usado na plenitude. E quando isso acontece, eu uso integralmente meu capital humano instalado. Assim, todo mundo levanta da cama e vai trabalhar feliz. E rende. Preciso de pessoas felizes trabalhando comigo, gente que pensa como a empresa. Através da felicidade implantada na Fesa, crescemos 1500% em sete anos. Todos os 170 profissionais que temos comungam dessa ideia. Quem não comunga, vai ser feliz em outro lugar. Os grandes líderes precisam trazer pessoas parecidas com elas para as empresas. Aí se tem a felicidade no ambiente corporativo, e alto rendimento, alta produtividade e alta lucratividade. O livro não serve só para executivos, mas para todos. É um livro de reflexão.