No seminário ?Interesse público e as estratégias de privatização da água no mundo?, realizado na quarta-feira (9), em Curitiba, o sindicalista francês Jean Luc Touly acusou as duas principais empresas de água da França, a Vivendi e a Suez-Lyonnaise des Eaux, de se utilizarem de meios pouco éticos para ampliar suas áreas de atuação. ?Esses meios?, afirmou Touly, ?num primeiro momento, se dão por métodos de corrupção dos parlamentares?. O sindicalista argumentou que através desses parlamentares, muitas vezes com cargos altíssimos nessas empresas, as comunidades são cooptadas.

Segundo Touly, autor do livro As verdades inconfessáveis da Vivendi, essas multinacionais são financiadas, atualmente, pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Mas frisou que as duas foram criadas por banqueiros e, até hoje, visam apenas ao lucro. ?Entretanto?, conta ele, ?para obter esses ?financiamentos?, seria necessário subir as tarifas de água e esgoto e participar minoritariamente das empresas públicas, sempre tentando manter o controle da gestão da empresa. Este era o caso da Sanepar até que o governador Roberto Requião anulou o pacto de acionistas?.

?Essas duas empresas francesas, a Vivendi e a Suez-Lyonnaise des Eaux, vivem mudando de nome por conta de uma estratégia de marketing?, afirmou. O objetivo dos proprietários é, segundo Touly, ter o domínio deste bem, considerado público. ?O pretexto é vender a imagem de que o setor público é incapaz de realizar esse tipo de serviço com eficiência e eficácia e que não dispõe de recursos para investir?, diz ele.

PPPs

De acordo com o sindicalista, as parcerias público-privadas – PPPs – nasceram na França. Ele explica que o princípio é simples: constrói-se um sistema de água ou de esgoto com os recursos públicos, mas quem opera são as empresas privadas. Caso um cano rompa, a responsabilidade é da coletividade ou do poder concedente. ?Isto significa que as empresas operadoras do sistema não arcam com nada e os parlamentares, que enriqueceram com as PPPs, também não.?

?Associações, movimentos populares, representantes de empresas públicas, igreja e sindicatos estão se unindo para pensar em alternativas para livrarem-se dessas empresas, que hoje detêm um terço da água da França, do meio ambiente, de rádios, tvs, internet, parquímetros e até casas funerárias. Com isso, eles não pretendem ficar só com um terço da água, mas controlar desde a vida até a morte.?

Resistência

Maria Esther Udaeta, membro do grupo que organizou a resistência à privatização da água em Cochabamba, na Bolívia, falou sobre o resgate da água como direito humano e bem público. ?Estamos aqui porque vemos a água como um filho. Temos de cuidar e preservar esse ?filho?. Queremos trocar experiências porque temos de deter o avanço privatista. O projeto da PPP deveria trocar de nome para parceria público-pública.?

Roni Anderson Barbosa, presidente da CUT-PR, instituição que tem tradição na luta contra a privatização de bens públicos, garante que esse movimento contra a privatização da água tem de ser levado a sério, pois é internacional. ?Não podemos passar o controle da água para nenhuma empresa privada, seja nacional ou não?, afirma. ?Sindicatos de outros países, com experiências semelhantes podem nos ajudar a engrossar e enriquecer esse movimento, que começou no último Fórum Social Mundial. No fórum, a discussão seria sobre o Aqüífero Guarani e acabou derivando para a escassez de água no mundo e o conseqüente olhar privatista internacional para o grande potencial de água doce do qual dispõe o Brasil, que, segundo estimativas, possui 12% de toda essa água?, concluiu.