A percepção inicial de que a crise política não traria desgaste do prestígio do presidente Lula foi pulverizada pelos resultados da última pesquisa CNI/Ibope. A metade dos 52 milhões de eleitores que votaram nele em 2002 não o faria hoje, e 49% dos consultados (2.002 pessoas em 143 municípios) discordam da candidatura à reeleição.

Uma realidade oposta àquela desfrutada pelo chefe da nação nos primeiros meses de seu governo, quando o sonho do operário guindado à presidência da República se transformou em realidade.

Prestes a chegar ao final do terceiro ano do mandato, faltam pouco mais de noventa dias, sendo o próximo um ano eleitoral, arrochado pelos desvios éticos de seu próprio partido e sem ter alcançado as metas significativas de seu projeto de governo, Lula também se defronta com a dificuldade de manter a coligação partidária da campanha vitoriosa.

A salvação está na constatação de que o presidente e o governo chegaram ao limite das perdas de popularidade em função do escândalo inspirado no enredo dum romance policial, tal a grossa intervenção de personagens não ligados necessariamente ao campo político-partidário.

Há toda uma constelação de publicitários, doleiros, investidores, assessores, secretárias e até cafetinas desfilando pelos bastidores da pantomima de Brasília, ante a qual a sociedade se esforça para compreender as razões de tais pessoas serem chamadas à cena. A reação lógica é o crescimento da massa de eleitores decepcionados com o presidente Lula.

Os vários indicadores brotados da pesquisa deixam o governo em situação periclitante, pois ele sabe que a recuperação do terreno sofrerá as conseqüências do pouco tempo restante para executar um projeto que mal começou.

Não há como reverter a péssima impressão dos eleitores em relação ao governo nem com a utilização dos fantasiosos artifícios do marketing político, pois essa é uma excrescência a ser extirpada das futuras campanhas. Os candidatos vão aparecer só com a cara e a competência de formular idéias capazes de conquistar os eleitores.

Tem-se declarado que toda crise tem uma vertente saneadora. Tomara que isso aconteça agora em nosso País, marcando o início do processo de erradicação da impostura e do oportunismo, tão comuns em política.