Não foi nada confortável para a cidadania esclarecida ver a tropa de choque da Polícia Militar agindo dentro do Congresso Nacional, quarta-feira passada, no início da votação da reforma da Previdência. Sem trocadilhos, foi um grande choque. Mas, segundo o presidente João Paulo Cunha, a democracia estava em perigo e “sempre que houver risco para o Legislativo – conforme disse para, depois, chorar amargurado ante o dilúvio de discursos e críticas – a PM será convocada como força auxiliar”.

Enquanto o cacetete falava sobre o lombo de manifestantes ousados, incluindo funcionários do próprio Poder, em São Paulo um jornalista era assassinado friamente ao registrar cenas dos sem-teto que, encorajados pelo exemplo e ação dos sem-terra em sintonia com Brasília, resolveram acampar em área particular. Os dois fatos, por ironia do destino, fazem parte do espetáculo de julho. Que, infelizmente, e apesar da tênue baixa da taxa de juros, ainda não é o do crescimento, prometido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O clima de guerra civil que antes se restringia ao campo, se estende também à cidade, reforçando as falanges assanhadas do crime organizado, e alcança o coração do poder central. Até onde a memória alcança, é a segunda vez na história do Brasil (a primeira foi durante a ditadura) que a força política tupiniquim é substituída pela a força bruta de policiais armados e encouraçados. Embora tenha tido lá suas razões, não achamos graça nenhuma no prognóstico de João Paulo Cunha. Chamar a polícia sempre que o caldo engrossa pode virar perigosa rotina. E será sempre ridículo alguém ter que recorrer ao Supremo Tribunal Federal, como de fato aconteceu, para garantir o direito de ir e vir dentro da Casa que deveria ser a garantia maior de todos os direitos.

Abra-se um parêntesis para observar que, mutatis mutandis, os fazendeiros que têm suas terras e casas invadidas poderão vir a invocar a mesma legitimidade aludida por João Paulo para chamar a polícia ou, na ausência dela, defender o patrimônio pela força. Os conceitos finalmente emitidos por Lula acerca da intolerância do Estado a atos de violência e ilegalidade (de um lado ou de outro, conforme disse a ruralistas), não correspondem ao comportamento de lenidade até aqui verificado quando se trata de coibir ações claramente ilegais do Movimento dos Sem-Terra, cujo boné Lula vestiu em público.

Na comparação das duas frentes de guerra, é curioso observar que as legiões de lobistas, que acamparam no Planalto e motivaram o recurso extremado e discutível da convocação da força policial, são movidas pela vontade de impedir a ação legítima e constitucional do Estado (e da própria sociedade) na correção das injustiças e diferenças sociais. Aqui na planície, as hordas invasoras vão em busca do mínimo para sobreviver – uma nesga de terra onde plantar chuchus, uma cesta básica, um pagamento mensal do Fome Zero. Lá no Planalto, vão os que buscam a manutenção de privilégios que acentuam sempre mais as diferenças.

Melhor agiriam tanto os sem-terra quanto os sem-teto se acampassem também todos na Esplanada dos Ministérios para fazer contrapeso à ação lobística dos que, além do contracheque gordo que recebem, não abrem mão de ajudas extraordinárias na ativa ou na inatividade. Os sem-terra e os sem-teto ao lado dos que recebem auxílio-moradia… eis uma situação meramente imaginária, que tem a seu favor a vantagem de aproveitar melhor a força policial ali concentrada. E que não descarta a possibilidade de, a partir de um confronto assim, fazer acontecer finalmente o milagre do armistício. Ou o novo pacto social sonhado pelo ex-sindicalista presidente.

Um novo pacto sem lugar para tantos privilégios. Pelo menos é mais ou menos isso que o presidente Lula repetiu em Concórdia, Santa Catarina, na tarde de quinta-feira. É também o que tentou dizer pela enésima vez o ministro da Fazenda, Antônio Palocci. Sem reformar a Previdência, os servidores haverão de arrancar, no futuro, os próprios cabelos de arrependimento: no ano passado, o governo arrecadou deles apenas R$ 3 bilhões; gastou com a previdência deles R$ 33,5 bilhões. Diferença de dinheiro que sai do bolso do contribuinte que, sem perspectiva de aposentadoria, reclama por segurança, estradas, moradia, hospitais e escolas. Essa conta que nunca fecha devido a uma minoria (segundo Lula procura demonstrar didaticamente em meio à guerra) que não percebe que não pode continuar se aposentando com 10, 20 ou 30 mil reais mensais, enquanto a grande maioria mendiga salário mínimo.