O Brasil pode ter seu próprio "arroz dourado" em alguns anos. A Embrapa e o gerente do projeto internacional, Jorge Mayer, começam a conversar sobre o assunto em uma reunião que acontece nesta terça-feira em Brasília.

O arroz dourado é um cereal transgênico com alta concentração de betacaroteno, que se converte no corpo em vitamina A – cuja deficiência pode provocar problemas de saúde, como a cegueira, especialmente em crianças.

A intenção da Embrapa é usar o conhecimento adquirido pelos cientistas do projeto internacional para criar uma versão nacional, que seria testada no Maranhão.

O arroz dourado foi apresentado em 1999 como uma promessa da biotecnologia para remediar a falta de vitamina A na mesa dos países pobres. Ele contém dois genes estrangeiros, retirados de uma bactéria ou do lírio, e o outro, do narciso. Os genes foram implantados na variedade japônica, comum nos países asiáticos – aquela que, quando cozida, fica grudada – e criaram um cereal de tom mais amarelado do que o natural.

O plano da Embrapa é colocar esses dois genes na variedade índica, a mais utilizada na culinária brasileira. Para tanto, só falta um acordo entre os dois lados. Esse transgênico pertence à multinacional Syngenta – que liberou a patente em alguns países pobres, e para produções pequenas, voltadas para o consumo local. Acredita-se que para abrir mão dos royalties no Brasil – considerado pela ONU uma "economia em transição"-, a empresa vá pedir uma contrapartida. "A Syngenta pode querer alguma coisa, talvez um intercâmbio de conhecimento", afirma o pesquisador Afonso Celso Valois, da Embrapa. "A conversa ainda vai começar, mas será feita de forma legal e transparente."

Controvérsias – A Organização Mundial da Saúde (OMS) calcula que 250 milhões de crianças em idade pré-escolar não consomem betacaroteno em quantidade suficiente, boa parte delas desde antes de nascerem, porque suas mães apresentavam a deficiência na gravidez. Na África e no Sudeste Asiático, a deficiência de vitamina A provoca de 250 mil a 500 mil casos de cegueira por ano.

O arroz dourado é uma das táticas que a OMS analisa para resolver o problema. Outras são os convencionais de melhoramento genético e a inclusão de mais alimentos com betacaroteno no cardápio da população. No Brasil e em outros países, a vitamina A é dada a crianças durante campanhas de vacinação.

O arroz dourado provoca controvérsias desde seu lançamento. Ele foi anunciado como um exemplo do que a transgenia poderia fazer pela saúde pública. Mas críticos do uso de organismos geneticamente modificados na alimentação, como a organização ambientalista Greenpeace, disseram que o projeto era irresponsável ao colocar na mesa dos pobres transgênicos que eventualmente poderiam causar males no futuro. A diretora-geral da OMS na época, Gro Harlem Brudtland, afirmou que havia um bom potencial ­- desde que questões de biossegurança e culturais fossem cuidadosamente analisadas.

A primeira geração de arroz dourado apresentava alguns problemas. Os grãos não continham a quantidade mínima de betacaroteno para suprir as necessidades diárias de uma pessoa. Além disso, também carregavam o gene de um antibiótico, usado como marcador para que os cientistas soubessem, no DNA do arroz, onde havia sido feita a modificação. Segundo Mayer, a nova geração não contém este marcador, e o nível de betacaroteno foi elevado em 20 vezes.

O maior problema que o projeto enfrenta hoje, diz o cientista, é a falta de leis de biossegurança nos países-alvo, especialmente os asiáticos e os africanos. Até hoje, só um teste de campo foi feito, e nos Estados Unidos. O Brasil pode se tornar o segundo, caso o acordo com a Embrapa vingue e o pedido seja aprovado na Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio).