Nunca esteve tão próxima da realidade a sugestão de evitar, a qualquer custo, convidar para a mesma festa o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os principais dirigentes do PMDB, maior partido da base governista no Congresso Nacional. Ao que se depreende das últimas reações do partido no Senado, o mar não está para peixe.

O primeiro a tomar a iniciativa de afirmar publicamente que o PMDB não está satisfeito com o tratamento recebido do governo foi o senador Renan Calheiros (AL), presidente da câmara alta, alvejado no plexo solar por três processos por quebra de decoro parlamentar. Comentaristas políticos não incorreriam em erro se afirmassem que a insatisfação deve ter iniciado com o próprio Renan, tendo em vista seu abandono por parte do governo, justamente na hora em que mais carecia de apoio e solidariedade.

Renan livrou-se do primeiro processo de cassação autorizado pelo Conselho de Ética, na desastrosa sessão secreta realizada pelo Senado. Foram 40 votos negando a perda do mandato e seis abstenções, contra os 35 votos pela punição. Ventilou-se na ocasião que as abstenções resultaram da cabala realizada veladamente pelo senador Aloizio Mercadante (PT-SP), que ato contínuo abriu a opção pessoal pela abstenção. Ninguém confessou, mas essa teria sido a contribuição efetiva do governo na preservação do mandato do aliado hostilizado por todos os flancos.

Nos dias seguintes à votação, Mercadante passou a reivindicar do senador Renan Calheiros o afastamento temporário da presidência para melhor se defender das acusações pendentes e, mais, liberar a instituição para votar os projetos de interesse do governo, à vista da obstrução sistemática da oposição. Na hipótese plausível de ter sido esse o conchavo para assegurar a absolvição, Renan deu o dito pelo não dito.

A primeira manifestação da rebeldia peemedebista parece ter se concretizado mediante a adição de seus votos à proposta oposicionista de acabar com a Secretaria Especial de Planejamento de Longo Prazo (Sealopra), entregue pelo presidente Lula ao professor Roberto Mangabeira Unger que, ao contrário da natureza dos bons ofícios dele esperados, foi incapaz de prever a meteórica duração de sua passagem pela Esplanada dos Ministérios.

Lula convocou reunião de emergência com o estado-maior do PMDB, liderado pelo presidente da executiva nacional, deputado Michel Temer (SP), a fim de serenar os ânimos exacerbados. Afinal, a Sealopra foi para o espaço por 46 votos a 22 e o Planalto abespinhou-se ante a iminência de nova derrota com a CPMF.