É comum, de vez em quando, a gente contar uma mentirinha para nós mesmos, por exemplo: – Pode comer mais um pedacinho, que não engorda; pode tomar mais um pouquinho, que está tudo sob controle; isso não incomoda ninguém. Quando a ilusão é eventual, pode não ter maiores conseqüências. Mas se a mentirinha for contada cem vezes, e se se é jovem ou parte de um grupo de risco, as seqüelas podem ser tão graves quanto a dificuldade de recuperar-se.

Imagine uma família de pessoas obesas – todos acima de cem quilos, no mínimo – numa churrascaria. Pedem, em quantidade exagerada, os mais variados espetos, com tudo o que têm direito: lingüiça, lombo, costela, farofa, arroz à grega, batata frita, etc. Aí o garçom pergunta: -E para beber? Todos, em uníssono, com ar convicto e redentor, pedem: – Refrigerante “diet”! Seria hilário se eu não tivesse presenciado a cena.

Paradoxo semelhante ocorre com o indivíduo que se diz “naturalista”, vegetariano ou macrobiótico, para ter uma vida saudável, mas fuma. Afinal, tudo é vegetal… O caso do fumo, aliás, é típico da tentativa de enganar-se. Faz-se apologia de “benefícios”, para encobrir os efeitos negativos, físicos e sociais. Chegaram a vinculá-lo, até, a ritos de passagem, embora sua única “utilidade” consagrada seja acender pavios de bananas de dinamite, em filmes de velho oeste.

Vejamos o caso dos jovens que se iniciam, ou são iniciados, nesse vício: antigamente, fumar era coisa de macho! Mulher que fumasse não prestava! Curiosamente, fumar passou a ser um dos símbolos da liberação feminina. Obviamente a indústria do fumo e adjacências deram pulinhos de alegria. Isso quer dizer que fumar deixou de ser coisa de “macho”? Mulher virou “macho”? Ou isso era só um ardil para induzir mais gente ao vício? As propagandas grandiosas ou “boca a boca” induzem os adolescentes a fumar. A gente pergunta por que e eles respondem doutrinariamente: – Porque a gente parece adulto; porque todos os meus amigos fumam; porque fumar emagrece; porque eu gostei e é chique!

Trabalhei, por alguns meses, numa sala fechada, com ar-condicionado, onde ficavam sete pessoas, das quais seis fumavam. Eu era o único que não fumava… diretamente. Quem abrisse a porta imaginar-se-ia em Londres, tal a neblina. O ambiente fedia e as roupas ficavam impregnadas com o cheiro. A maioria era de adolescentes.

Gostar de fumar… Se é tão gostoso, por que é tão comum ver meninas, no início do vício, fumando e mascando chiclete ao mesmo tempo? Não se trata de prazer, mas de atenuar os efeitos que a própria dependência provoca.

Como de praxe em toda a aventura impensada, que a gente pensa poder controlar, depois de pouquíssimo tempo, nem as meninas nem os meninos vão mais mascar chiclete. Vão fumar um maço atrás do outro. Vão fumar sempre que ficarem nervosos. Vão ficar nervosos sempre que não fumarem. Vão esquecer que existem cinzeiros, placas de proibição ou pessoas a menos de dois metros. Vão dizer que um café “pede” um “cigarrinho”. Vão fumar em ambientes públicos fechados, perto de crianças ou com elas no útero, transferindo a dependência. Nos restaurantes, após apreciarem o buquê de um bom vinho, e saborearem pratos de fino aroma e paladar delicado, queijos e sobremesas, vão acender seus cigarros, charutos e cachimbos, sem pedir licença aos demais, negando o mesmo prazer gastronômico aos outros. E, se alertados da inconveniência, talvez pensem ou exclamem, com indignação ou desprezo: – Que deselegância! Gente sem “finesse”…

Esse tipo de ilusão é assim: coloca você em primeiro lugar e molda a verdade segundo os seus interesses! Começa sem pretensão, depois vira dependência química, física ou psicológica. E a vítima é sempre a última a aceitar essa realidade. Concluindo: existem vícios, manias e compulsões que prejudicam a si próprio. Isso é ruim. Mas existem, também, os que afetam a quem não compartilha deles. Isso é péssimo!

O primeiro passo para livrar-se de conseqüências mais graves, clínicas inclusive, é tomar consciência da realidade, para enxergar as mentiras. O segundo é romper o ciclo vicioso de querer mais gente “no barco”, para tentar sentir-se “regra”; o terceiro é abandonar progressiva e seguramente a prática prejudicial à saúde.

Esse roteiro pode ser dramático, sobretudo nos primeiros dias e semanas. Mas será indubitavelmente menos doloroso e traumático que uma cirurgia de estômago, pulmão, ou que os danos aos sistemas circulatório e neurológico.

– Pois fique sabendo que eu paro quando quiser! Não é de “bom tom” criticar os outros! Não tenho defeitos! Isto é um “Havana” legítimo, ajoelhe-se! Meu avô morreu aos oitenta anos, e não foi disso! E quem estiver incomodado, mude-se, que eu também tenho direitos! Cof! Cof!

Quer acreditar nisso? Tudo bem! Uma mentirinha a mais, uma a menos…

Adilson Luiz Gonçalves é engenheiro, professor universitário e articulista. E-mail: algbr@ig.com.br