O último e único exemplar de engenho de erva-mate do século XIX está totalmente restaurado e pronto para receber a infra-estrutura que permitirá a visitação. Trata-se do Engenho da Rondinha, ou, como é mais conhecido, do engenho do Parque Histórico do Mate, em Campo Largo – 17 quilômetros de Curitiba – unidade do Museu Paranaense, da Secretaria de Estado da Cultura.

Totalmente restaurado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o engenho ganhou obras de estabilização estrutural, reforma total do telhado e das paredes de pau-a-pique. Além disso, foram restauradas as paredes de pedra, um painel de madeira e a roda d´água. Falta agora apenas obras de drenagem do terreno e de apoio para visitantes.

Segundo a diretora do Parque Histórico do Mate, Elaine Andréa Moro Costa, para a total revitalização do espaço estão previstos projetos de paisagismo, viveiro de erva-mate, trilha ecológica e mirantes. O parque contará ainda com lanchonete, loja e espaço para eventos. A inauguração está prevista para o dia 15 de abril, com uma exposição no moinho.

"A importância desse engenho é pelo fato de ser único em todo o Paraná e Brasil, e de ter sido a erva-mate um ciclo de grande importância econômica", afirma o superintendente do Iphan, José La Pastina.

História

Essa importância teve inicio no século XIX, mais precisamente em 1820, quando o comerciante portenho Francisco de Alzagaray se estabeleceu em Paranaguá e construiu um engenho de beneficiamento de erva-mate para abastecer o mercado argentino. Nessa época, os curitibanos não processavam a erva. Ela era então produzida no Planalto e beneficiada no Litoral. O percurso era feito pela Estrada da Graciosa em mulas que carregavam o produto em surrões de couro e cestos de taquara.

Com o passar do tempo, os engenhos foram subindo a serra, uma vez que a estrada da Graciosa recebia melhorias e as mulas começaram a ser substituídas por carroções. "A proximidade dos engenhos com os centros de produção possibilitam um grande salto na economia da erva-mate", conta La Pastina. Surgem inúmeros engenhos na região de Curitiba. Só em Campo Largo havia mais de quatorze.

Rondinha

O Engenho da Rondinha foi construído pelo capitão Carlos José de Souza Franco, cuja filha casou-se com o também ervateiro Agostinho Ribeiro de Macedo. A data da construção fica entre 1850 e 1876. Em 1894 foi adquirido pelo imigrante italiano Pedro Paulo Marchiorato, que realizou alterações radicais nos equipamentos que de engenho passou a moinho de cereais. Até que em 1968 foi tombado pelo Patrimônio do Estado e em 1985, pelo Patrimônio Nacional.

Como no local vivia Constantino Marchiorato (filho de Pedro Paulo Marchiorato), o Estado permitiu que a família continuasse morando na casa. Isso garantiu a sobrevivência do engenho, que não foi demolido como todos os outros.

Em 1979 o engenho passou por uma primeira restauração, com projeto e pesquisa dos arquitetos José La Pastina e Cyro Corrêa Lyra. Nessa época foram feitas obras de prospecção arqueológica e estudadas diversas fontes iconográficas para a recomposição da planta industrial original. Como diversos objetos haviam desaparecido, a prefeitura da Lapa doou um pilão e a Fundação Cultural de Curitiba doou um cocho de seis pilões escavados.

Processo de beneficiamento

Assim que era colhida, as folhas de erva-mate passavam por uma sapecada (as folhas eram passadas por uma fogueira muito rapidamente), ainda na mata. No engenho, elas iam para o barbaquá para a secagem mais completa. Esse barbaquá era construído na boca de um túnel ligado a uma fogueira. A erva era seca apenas com o calor do fogo e seguia para a cancha, onde era triturada e reduzida a pó para o consumo.

Os índios da tribo Guarani, por sua vez, usavam o que se chama de carijo para secar a erva. Essa técnica utilizava uma estrutura de madeira como um jirau com a erva, embaixo eram feitas várias pequenas fogueiras. Depois de seco, o produto era batido com os cambaús (peças de madeira) sobre couro de boi e estavam, então, pronto para o consumo.

Ainda hoje a erva-mate tem importância na economia do Paraná, como fonte de renda complementar, por ser uma cultura perene e requisitar poucos cuidados. No entanto, os engenhos atuais usam motor a diesel e pilões metálicos.

A economia do Paraná deve à erva-mate, não só o impulso econômico mas também o desenvolvimento da indústria gráfica, uma vez que as embalagens e rótulos eram produzidos em litografia. Até a década de 30 havia em Curitiba o Instituto Nacional do Mate e existia até um clube para os fabricantes de barricas de erva-mate, era a Sociedade Barriqueiros do Ahú.

A erva-mate era exportada em barricas feitas com pinho. O ciclo da erva-mate vive a decadência assim que começa o ciclo da madeira.