O presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou hoje (24) por um grande constrangimento ao vivo. Durante entrevista concedida para rádios de São Paulo e Rio de Janeiro, Lula prometeu várias vezes acabar com as filas nas agências do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) no próximo ano. Foi contestado no ar pelo ministro da Previdência Social, Nelson Machado que, chamado às pressas para participar da entrevista, disse que não tinha como por um fim na fila.

"Nosso compromisso é, efetivamente, reduzir as filas", ponderou Machado, que tentou explicar para o presidente a impossibilidade de se cumprir uma promessa dessa natureza. "Nós vamos melhorar (as filas) a partir de fevereiro. Acabar com a fila de uma vez só é muito difícil. Fila normal é necessária, inclusive para organizar o procedimento", argumentou o ministro. Lula não gostou. Antes de Machado chegar ao Palácio do Planalto ele tinha repetido a promessa cinco vezes e garantido que "a ordem é acabar com as filas, dando dignidade ao cidadão".

A insistência do ministro em atenuar a promessa feita mereceu de Lula uma reprimenda. "Deixa eu dar um alerta para você. Nós vamos terminar com a fila do INSS", disse taxativo o presidente. Mais uma vez Nelson Machado tentou argumentar mas, logo em seguida, foi cortado pelo presidente. "O Nelson está tomando a minha entrevista. Agora, Nelson, você pára por aí, que eu sou o entrevistado aqui", disse o presidente.

Mais tarde, em entrevista coletiva convocada para explicar o programa de gestão do atendimento na Previdência Social – e que atrasou quase uma hora devido à longa conversa por telefone mantida pelo ministro com o porta voz da Presidência da República, André Singer – Nelson Machado mais uma vez tentou contornar a situação. Ele disse que a fila que o presidente se referiu é a fila desumana, aquela que obriga as pessoas a passarem a noite na rua para serem atendidas ou aquela que obriga o cidadão a ficar horas a fio, em pé, em frente a uma agência. "Essa fila vai acabar até abril do próximo ano", assegurou.

De acordo com Nelson Machado, a fila que não vai acabar é a normal, que ele chamou de civilizada. "A fila normal, natural, civilizada, vai continuar", disse o ministro. Machado considerou que entre 45 minutos e uma hora e meia de espera é um tempo razoável para o completo atendimento da solicitação do cliente.

Para o ministro a confusão em torno do fim da fila aconteceu devido à sua formação técnica. "Uma pessoa parada na frente de um guichê já é fila", observou. Nelson Machado listou uma série de ações que a Previdência Social está adotando para reduzir as filas, como fortalecer o atendimento via internet, ampliar a capacidade tecnológica da Dataprev, substituir os computadores de todas as agências e ainda adotar o horário estendido, de oito da manhã às seis da tarde, mas agências com maior demanda. Aliás, a carga horária de atendimento ao público nos postos do INSS, das 8 da manhã às duas da tarde, foi bastante criticada pelo Presidente da República. "É muito pequena. Tem que atender das oito às seis", disse Lula para os ouvintes.